domingo, 27 de dezembro de 2015

Contos Bordados 2016


Os bordados estão lindos!
Segue as estórias que serviram de inspiração para as bordadeiras!
Boa Leitura!

Agradecimento especial à Marina Colasanti

Ainda não comprou o seu?!
Entre em contato conosco:


Zélia Melo: melozelia@terra.com.br
Neuza Oli Veira: nemabh25@gmail.com
Vani Luiza: vanicipriano@gamail.com
Selma Fabrini: amlesfab@gmail.com
Regina Drumond: reryreine@gmail.com
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Valéria Pimenta: valeria.arteterpia@gmail.com
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Janeiro - O Músico Maravilhoso









Conto: O Músico Maravilhoso

Bordado por: Zélia Melo
55 (31) 99984 5072 / melozelia@terra.com.br
Autor: Irmãos Grimm
Desenho: Zélia Melo

      Num país distante havia um músico que tocava muito bem violino. Como a vida não lhe corria muito bem decidiu procurar um companheiro. Foi até à floresta e pôs-se a tocar, até que lhe apareceu um lobo assustando-o. O lobo disse-lhe que tocava muito bem e que gostaria de aprender a tocar como ele. 
       O músico prometeu ensinar-lhe se ele fizesse tudo o que lhe mandasse. Então ao dirigirem-se para um carvalho velho, que estava oco e que tinha uma fenda a meio do tronco, o músico disse ao lobo que se quisesse aprender a tocar violino teria que meter a pata nessa abertura. O lobo obedeceu e o músico apanhou uma pedra, entalando a pata do lobo na fenda. 
        Como o músico queria encontrar um companheiro, lá continuou a tocar violino com entusiasmo, até que apareceu uma raposa encantada com a música, dizendo-lhe que gostaria de aprender a tocar como ele. Pelo que o músico respondeu que, para isso, bastava que ela fizesse tudo o que lhe mandasse. Então continuaram a andar até chegarem a um caminho estreito, aí o músico prendeu com os pés dois ramos de aveleira, dizendo à raposa que se quisesse aprender a tocar violino lhe desse a pata esquerda. O animal obedeceu e o homem atou uma das patas a um ramo e a outra ao segundo ramo. Ao tirar os pés dos ramos, eles endireitaram-se e a raposa ficou suspensa pelas patas.
Como ainda não tinha encontrado o companheiro para formar sociedade e ganhar a vida, sentou-se a tocar o violino. Entretanto apareceu uma linda lebre que ao gostar da música lhe pediu para o ensinar a tocar. O músico prometeu-lhe ensinar se ela obedecer às suas instruções. A lebre aceitou e deixou-o atar um cordel à volta do pescoço, prendendo-a a um tronco. 
         Entretanto o lobo debatendo-se consegue soltar a pata e, enfurecido, foi atrás do músico. Encontrou pelo caminho a raposa, que lhe pediu para a soltar. Ao passarem perto da lebre, esta gritou por ajuda e foram todos os três em busca do músico. Este, entretanto, tinha atraído com a sua música um caçador que lhe pediu para aprender a tocar. O músico, satisfeito, disse-lhe que o ensinaria de muito bom agrado, já que tocar bem um instrumento era um privilégio de homens e, ao ver os animais que se aproximavam furiosos, piscou o olho para lhe dar um sinal. O caçador apontou-lhes a arma, ameaçando-os, pelo que fugiram todos assustados. O músico ficou todo satisfeito por ter encontrado um companheiro e assim passaram a andar de vila em vila tocando e caçando para que nunca lhes falte comida.

Fevereiro - Um Amigo Para Sempre










Conto: Um Amigo Para Sempre

Bordado por: Neuza Oli Vieira
55 (31) 3337 7026 / nemabh25@gmail.com
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer baseado em Marina Colasanti

"Porque pensava diferente dos que chefiavam seu país, aquele homem
estava preso".

Livro: Um Amigo Para Sempre. SP, Quinteto Editorial, 1988.

Março - Com Sua Voz de Mulher









Conto: Com Sua Voz de Mulher

Bordado por: Vaní Luiza Cipriano
55 (31) 3226 8207 / vanicipriano@gmail.com
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Demóstenes Vargas


"Uma puxou de leve a saia do deus-mulher e pediu: "Conta!". E com sua voz
de mulher o deus contou".

Livro: Longe Como Meu Querer. Editora Ática, 1992.
Link: http://www.sandrabozza.com.br/?p=523


Abril - A Arca de Noé










Conto: A Arca de Noé

Bordado por: Selma Fabrini
55 (31) 3223 2009 / amlesfab@gmail.com
Autor: Conto do Velho Testamento
Desenho: Selma Fabrini

Naquele tempo, Deus vendo que era grande a malícia dos homens sobre a
terra, e que todos os pensamentos do seu coração , estavam continuamente
aplicados ao mal, arrependeu-se de ter feito o homem, e tocado de íntima dor
no coração disse: “Exterminarei da face da terra o homem que criei, até os
animais, desde os répteis até as aves do céu.”
Porém Noé, homem justo e perfeito entre os homens do seu tempo, achou
graça diante do Senhor. Deus então lhe disse: “Faça uma arca de madeiras
aplainadas com pequenos cômodos calafetados com betume por dentro e por
fora, com comprimento de trezentos côvados, largura de cinquenta côvados e
altura de trinta côvados. Faça uma janela e uma grande porta. Eis que estou
para derramar águas do dilúvio sobre a terra para fazer desparecer toda a
carne em que há espírito de vida debaixo do céu. Mas contigo estabelecerei
a minha aliança, Entrarás na arca, tu, teus filhos e tua mulher, e as mulheres
de teus filhos e cada espécie de todos os animais da terra, domésticos e
selvagens, macho e fêmea. Tomarás também contigo de  todas as coisas
que se podem comer para vos alimentar e aos animais”
Fez pois Noé, tudo o que o Senhor lhe tinha ordenado. Passados os sete
dias, caíram sobre a terra, as águas do dilúvio durante quarenta dias e
quarenta noites. As águas cresceram e elevaram a arca muito alto por cima
da terra. Tudo foi inundado com violência. Foram exterminados todos os
seres vivos que haviam. Noé e os que estavam com ele na arca ficaram à
salvo. Deus então fez soprar um vento forte e as águas agitadas duma parte
para a outra retiraram-se  de cima da terra.
No sétimo mês, a arca parou sobre os montes da Armênia, e tendo-se
passado quarenta dias abriu Noé a janela que tinha feito na arca e soltou um
corvo, o qual não voltou mais. Soltou então uma pomba, ela não encontrando
onde pousar, voltou à arca. Depois de ter esperado mais sete dias
novamente Noé soltou a pomba e ela voltou pela tarde, no bico um ramo
verde de Oliveira. Entendeu ele que as águas já haviam cessado sobre a
terra. Contudo, tendo Noé esperado mais sete dias, soltou novamente a
pomba que não retornou mais. Então, abrindo o teto da arca, Noé viu que a
superfície da terra estava completamente seca.
Deus falou a Noé : “Saia da arca, tu, tua mulher, teus filhos, as mulheres de
teus filhos, e todos os animais que estão contigo. Não amaldiçoarei mais a
terra por causa dos homens. Não tornarei pois a ferir os seres vivos como fiz.
Durante todos os dias da terra, a sementeira, e a messe, o frio e calor , a
noite e o dia não mais cessarão”.
E Deus abençoou Noé e seus filhos e disse-lhes: - “ Crescei-vos e multiplicai-
vos e enchei a terra. Eis que vou fazer depois de vós e com todos os animais
domésticos e selvagens que saírem da arca. Porei o meu arco nas nuvens e
ele será o sinal da aliança  entre mim e a terra e não voltarão as águas do
dilúvio  a exterminar tudo o que vive”.

Maio - O Alfaiate Valente








Conto: O Alfaiate Valente

Bordado por: Regina Drumond
reryreine@gmail.com
Autor: Irmãos Grimm
Desenho: Regina Drumond baseado em Olga Dugina e Andrej Dugin


Era uma vez... Em um país distante, vivia sozinho um alegre Alfaiate que, ao
ver um vendedor de geleia, comprou a geleia, passou em seu pão e o deixou
sobre a mesa para comer após o término de seu trabalho. E continuou a
costurar, cantarolando, cantarolando. A sua geleia atraiu algumas moscas,
que voaram em cima dela, mas o Alfaiate, tendo a costura em suas mãos,
deu um golpe sobre a mesa, derramando a geleia, e assim matou as moscas
que sobrevoavam a mesa !  Orgulhoso de sua proeza bordou em seu cinto as
palavras: "Sete de um só golpe.”
Alguns dias depois resolveu viajar pelo mundo para mostrar a todos como ele
era valente; colocou um pedaço de queijo em uma sacola e iniciou sua
viagem. No caminho encontrou um pássaro caído no chão e, com pena dele,
o colocou em sua sacola junto de seu queijo. E, alegre, continuou o seu
caminho,  andando ladeira acima, ladeira abaixo, quando, no alto de um
morro, encontrou com um enorme gigante e, ao se aproximar dele, disse:
Gigante, estou andando pelo mundo para mostrar como eu sou valente! Veja
o que está escrito em meu cinto: "Sete de um só golpe!” O gigante leu e,
muito impressionado, pensou que o pequeno Alfaiate havia matado sete
homens de um só golpe. E para tirar toda dúvida, o gigante desafiou o
Alfaiate: pegou uma pedra e a triturou em suas mãos, dizendo: Isto é muito
fácil de fazer. Então o Alfaiate tirou o queijo de sua sacola e o espremeu
entre as mãos sem muito esforço, impressionando o gigante novamente.
Mas... o esperto gigante pegou uma pedra e a atirou ao ar até alcançar uma
nuvem que passava. O nosso Alfaiate mais uma vez não se deu por
derrotado: tirou de sua sacola o pássaro que encontrara na estrada e o jogou
para o alto. O pássaro, feliz por se ver livre, voou bem alto, até sumir de vista.
E o gigante, espantado, achou melhor tratar bem aquele baixinho tão
perigoso e o convidou para passar uma noite em sua casa, convite este que
o Alfaiate aceitou imediatamente, pois já caia a noite. Na calada da noite,
enquanto o Alfaiate dormia, o gigante, com inveja e receio de seu hóspede,
resolveu matá-lo, quebrando ao meio a cama onde o Alfaiate dormia. Mas,
por estar encolhido, o Alfaiate escapou da morte sem que o gigante nada
percebesse. Ao amanhecer o pequeno Alfaiate ficou frente a frente com o
gigante, ameaçando-o com as mãos na cintura. O grandalhão, apavorado,
saiu correndo e os seus gritos foram ouvidos pelos soldados da guarda real
que, espantados, ficaram ao ver aquele gigante fugir com medo do pequeno
Alfaiate Valente.
Quando os soldados chegaram e perguntaram quem ele era, o Alfaiate
somente mostrou o seu cinto com os dizeres "sete de um golpe só ". Os
soldados, então, acharam melhor conduzir este herói ao palácio real, para
apresentá-lo ao Rei. O Rei, a Rainha e a Princesa ficaram admirados com a
valentia do Alfaiate que, reverenciando a Família Real,  ofereceu-lhes todos
os seus préstimos.
Assim, o Alfaiate Valente passou a morar em uma bela casa perto do Palácio,
sendo um dos convidados permanentes da Família Real. Mas... aconteceu
um dia que o Rei o chamou e lhe disse: Tenho uma tarefa para lhe dar, já
que você é forte e valente. Há em meu reino dois gigantes que perturbam e
assustam  o meu povo. Se você conseguir nos livrar deles, como pagamento
eu lhe darei a metade do meu reino e, como prêmio lhe concederei a mão da
princesa, a minha filha, em casamento.
O Alfaiate, entusiasmado, imediatamente aceitou esta tarefa e encaminhou-
se para a floresta, onde não demorou a encontrar os dois terríveis
homenzarrões, dormindo a sesta no campo e eles estavam de costas um
para o outro.
O Alfaiate, enchendo os seus bolsos de pedras pontiagudas, subiu na árvore
onde os dois gigantes estavam encostados, e atirou duas grandes pedras na
cabeça de um deles. Pare com isto! Gritou o gigante, e deu um soco na cara
do outro, que respondeu : Eu nada fiz,  você está sonhando!
Passado um tempo, os dois gigantes novamente adormeceram e roncaram
bem alto. O Alfaiate esperou um pouco e atirou mais duas pedras na cabeça
do segundo gigante que, furioso, acordou e partiu para cima do primeiro. Os
dois se envolveram em uma luta feroz, buscando pedaços de árvores para
atirar um no outro! Esta briga foi tão violenta, que os dois acabaram caindo
mortos! Missão cumprida disse o Alfaiate, sorridente.
E voltou ao palácio para relatar ao Rei o seu novo feito heroico. Entretanto,
no momento de premiar o Alfaiate, o Rei não cumpriu a sua promessa, mas
lhe encomendou uma nova tarefa, dizendo: Você foi valente, mas preciso de
mais um trabalho seu. Quero que você  traga para mim  o chifre de um
unicórnio selvagem que vive aqui na floresta.
A Princesa ficou temerosa deste novo pedido de seu pai, mas o Alfaiate
respondeu ao Rei : Isto será muito fácil para mim. Eu matei sete de um golpe
só e agora matei  mais dois gigantes malvados. Vou lhe trazer o chifre do
unicórnio, conforme a sua vontade, Majestade. E foi novamente para a
floresta. Ele nem andou muito quando investiu contra ele um enorme
unicórnio, feroz cavalo branco com chifre na testa! © 2015
Ágil como um gato, o Alfaiate pulou para trás de uma árvore, mas o unicórnio
em sua fúria e sem poder deter sua corrida, espetou o chifre no tronco da
árvore, ficando preso e sem poder levantar a cabeça! © Sem perder tempo, o
esperto Alfaiate tirou de sua sacola o machado e, com uma só machadada,
cortou o chifre do unicórnio que, ao se  livre do tronco, fugiu...
Muito bem, disse o Alfaiate, Esta missão também está cumprida! Quero ver
como a Sua Majestade vai me recompensar agora. Mas o Rei achava que o
Alfaiate não era nobre o bastante para ser seu genro. Ele o convidou para
morar no palácio, enquanto aguardava os preparativos para o casamento
com a Princesa. O Alfaiate Valente aceitou esta proposta do Rei.
E o  Rei, chamando os seus soldados, lhes deu a seguinte tarefa: Soldados,
esta noite, quando o Alfaiate estiver dormindo, invadam o seu quarto e o
amarrem bem amarrado, para nos livrar dele rapidamente! O Rei não sabia
que a Princesa, escondida na escada, escutava tudo. Ela já gostava do
Alfaiate e queria se casar com ele. Assim o avisou do perigo que corria,
dizendo-lhe: Você deve fugir daqui, e bem rápido, meu amor.  Fuja, fuja, fuja.
Não vou fugir! Não quero deixar você, minha querida ! Eu quero me casar
com você!
Eu também quero me casar com você!  disse a Princesa, mas temos de
esperar outro momento.  Agora, fuja! Fuja agora, rápido! - Não vou fugir! Eu
tenho um plano, respondeu o Pequeno Alfaiate. Assim foi para o seu quarto,
se escondeu detrás da porta e esperou pelos soldados que viriam prendê-lo.
Quando os soldados se aproximaram, rapidamente o Alfaiate abriu a porta e
gritou em alta voz: Eu já matei sete de um só  golpe, acabei com dois
gigantes, cortei o chifre de um unicórnio selvagem!  Eu não tenho medo dos
soldados que estão aí fora!
E os soldados, ao ouvir isto, saíram correndo, assustados e apavorados.
Assim o Rei foi obrigado a cumprir a promessa de sua filha casar com o
Alfaiate Valente.  E o nosso Alfaiate Valente  casou-se com a Princesa, foram
morar no Palácio e foram felizes para sempre.

Junho - Uma Concha à Beira-Mar









Conto: Uma Concha à Beira-Mar

Bordado por: Umeko Marubayashi
umemaruba@yahoo.com.br
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer baseado em Marina Colasanti

" Até chegar por fim aquele dia em que, do alto de um penhasco, o príncipe
viu a seus pés o vasto e fundo azul que só conhecia nos olhos da amada."


Livro "Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento". Global Editora, São Paulo,
2006

Link:
https://books.google.com.br/books?id=1UmsBQAAQBAJ&pg=PT21&lpg=PT2
1&dq=marina+colasanti+uma+concha+a+beira+mar&source=bl&ots=0H9t_O
NLka&sig=1AT2iNHW4eGjSbrIxqwMHdIQw9M&hl=pt-
BR&sa=X&ved=0CCkQ6AEwAmoVChMI_7-
VusaGyQIVycImCh2utADk#v=onepage&q=marina%20colasanti%20uma%20
concha%20a%20beira%20mar&f=false

Julho - O Último Rei









Conto: O Último Rei

Bordado por: Valeria Pimenta
valeria.arteterapia@gmail.com
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer

"No alto da muralha gasta de sempre receber o vento, o mundo punha-se aos 
pés do rei'

Livro: Uma Ideia Toda Azul. Editora Nórdica, 1979
Link: http://umahistorinhapordia.blogspot.ch/2011/08/o-ultimo-rei-marina-
colassanti.html


Agosto - No Castelo que se Vai








Conto: No Castelo que se Vai

Bordado por: Marie-Thérèse Pfyffer
mtpfyffer@gmail.com
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer baseado em Marina Colasanti

"E o sopro daquelas bocas abertas, o eco daquelas risadas todas fez ondejar
os aéreos cortinados, moveu aos poucos os inexistentes torreões, as
ausentes paredes".

Livro: Entre a Espada e a Rosa. Melhoramentos, 2009.

Setembro - Os Três Cabelos de Ouro do Diabo










Conto: Os Três Cabelos de Ouro do Diabo

Bordado por: Ilka Finotti Wutke
ilkafinottiw@gmail.com
Autor: Irmãos Grimm
Desenho: Ilka Finotti Wutke

Houve, uma vez, uma mulher muito pobre, que deu à luz um menino e, como este nascera com a túnica da sorte, predisseram-lhe que, aos catorze anos se casaria com a filha do rei. Eis que, decorrido pouco tempo, o rei foi àquela aldeia sem que soubessem que era ele; quando perguntou à gente do lugar pelas novidades locais, logo lhe responderam:
- Nasceu, nestes dias, um menino com a túnica da sorte. Quem nasce com essa túnica será muito feliz e, faça o que fizer, tudo lhe sairá bem. Predisseram-lhe, ademais, que aos catorze anos se casará com a filha do
Ouvindo isso, o rei, que era de mau coração, ficou indignado, principalmente por causa da profecia. Foi procurar os pais da criança e, demonstrando benevolência que não possuia, disse-lhes:
- Pobre gente, dai-me o vosso menino; eu tomarei conta dele.
A princípio, oS pais recusaram-se, mas, como o desconhecido lhes oferecia grande soma de dinheiro, pensaram entre si: "É um filho da sorte, como tal, tudo lhe correrá bem." Assim acabaram concordando e deram-lhe o filhinho.
O rei colocou-o dentro de uma caixa; montou a cavalo e pôs-se a caminho. Ao chegar a um rio caudaloso, atirou nele a caixa, murmurando:
- Assim livro minha filha desse pretendente indesejado.
A caixa, porém, não afundou. Ficou flutuando como um barquinho e nem uma só gota de água penetrou dentro dela. Foi vogando uns dois quilômetros, além da capital do Reino, chegando assim a um moinho em cuja roda ficou presa. Por boa sorte, encontrava-se lá, no momento, o ajudante do moleiro que, vendo-a, a puxou para fora com um gancho, pensando encontrar dentro dela algum tesouro. Mas, quando a abriu, encontrou simplesmente um belo menino, risonho e vivaz. Levou-o para o casal de moleiros, os quais, não tendo filhos, alegraram-se muito, dizendo:
- Este é um presente de Deus!
Acolheram o enjeitado, trataram-no com todo o carinho e ele cresceu dotado de grandes virtudes.
Ora, aconteceu que um dia, durante forte tempestade, o rei teve de refugiar-se no moinho; vendo o menino perguntou aos moleiros se era filho deles.
- Não, - responderam, - é um enjeitado que há catorze anos apareceu dentro de uma caixa, a qual ficou presa à roda do moinho, e nosso ajudante retirou-a da água.
O rei, então, concluiu que não podia ser outro senão o filho da sorte, atirado por ele dentro do rio. Dirigindo-se aos moleiros disse:
- Boa gente, não poderia esse menino levar uma carta à Sua Majestade a Rainha? Eu lhe darei como recompensa duas moedas de ouro.
- Será feito o que Vossa Majestade ordena, - responderam os moleiros.
Disseram ao menino que se aprontasse. O rei, então, escreveu à rainha uma carta com a seguinte ordem: "Assim que o rapaz, portador desta carta, chegar aí, quero que o matem e o enterrem; faça-se tudo antes do meu regresso."
O rapaz pôs-se a caminho, levando a carta, mas extraviou-se e, à noite, foi dar a uma grande floresta. Em meio a escuridão, avistou uma luzinha; caminhou em sua direção e chegou a uma pequena casa; viu uma senhora idosa sentada, sozinha junto do fogo. Esta, ao ver o rapaz, assustou-se e perguntou:
- De onde vens? E para onde vais?
- Venho do moinho, - respondeu ele, - e vou levar uma carta a Sua Majestade a Rainha. Mas, tendo perdido o caminho, desejo pernoitar aqui.
- Pobre rapaz, - disse a velha, - vieste cair num covil de bandidos; quando chegarem e te virem, certamente te matarão.
- Venha quem quiser, - respondeu o rapaz, - eu não temo ninguém; estou tão cansado que não posso continuar a viagem.
Deitou-se sobre um banco e logo adormeceu. Não tardou muito chegaram os bandidos e, zangados, perguntaram quem era aquele desconhecido ali deitado.
- Oh, - disse a velha, - é um inocente menino que se perdeu na floresta; recolhi-o por compaixão, pois vai levando uma carta a Sua Majestade a Rainha.
Curiosos, os bandidos abriram a carta para ler o que continha; ao ver que era uma ordem para matar e enterrar o rapaz assim que chegasse ao palácio, aqueles corações empedernidos apiedaram-se dele. O chefe da quadrilha, então, rasgou a carta, escrevendo uma outra, na qual dizia que o rapaz, logo após a chegada, devia imediatamente casar-se com a princesa. Deixaram-no dormir, sossegadamente, até pela manhã. Quando acordou, deram-lhe a carta e ensinaram-lhe o caminho certo.
Ao receber a carta, a Rainha prontamente executou as ordens. Mandou que se organizasse uma esplêndida festa e a princesa casou com o filho da sorte. Como era um rapaz bonito e afável, sentiu-se alegre e feliz a seu lado.
Transcorrido algum tempo, regressou o rei ao castelo e verificou que se realizara a predição: o filho da sorte casara-se com a princesa sua filha.
- Como pôde acontecer isto? - perguntou; - na minha carta dei ordens completamente diversas.
A Rainha, então, mostrou-lhe a carta recebida para que ele mesmo visse o que dizia. O rei leu-a e percebeu que havia sido trocada. Perguntou ao rapaz o que acontecera e por que trouxera a carta trocada.
- Eu nada sei, - respondeu o rapaz, - talvez tenha sido trocada enquanto dormia lá na floresta.
- Não te sairás tão facilmente desta, - exclamou o rei, encolerizado. - Quem quiser minha filha, terá de trazer-me do inferno os três cabelos de ouro do Diabo; quando me trouxeres o que exijo, então poderás ficar com minha filha.
Com isto, o rei pensava que se livraria, de uma vez por todas, do rapaz. Mas o filho da sorte disse-lhe:
- Está bem, irei ao inferno buscar os cabelos de ouro, pois não tenho medo do Diabo.
Despediu-se de todos e iniciou a longa caminhada. A estrada, por onde seguia, conduziu-o a uma grande cidade cercada de muralhas; chegando à porta, a sentinela perguntou-lhe qual era seu ofício e o que sabia.
- Sei tudo, - respondeu o filho da sorte.
- Dize-nos, então, por favor, por quê é que secou o chafariz da praça do mercado, do qual normalmente jorrava vinho e agora nem mais água jorra? - perguntou a sentinela.
- Sabereis quando eu voltar, - respondeu o rapaz.
Continuou andando e chegou à porta de outra grande cidade; aí, também, a sentinela perguntou-lhe qual era o seu ofício e o que sabia.
- Sei tudo, - respondeu ele.
- Dize-nos, então, por favor, por quê é que certa árvore de nossa cidade, que sempre produziu maçãs de ouro, agora nem folhas dá mais?
- Sabereis quando eu voltar, - respondeu.
Prosseguiu o caminho. Foi andando até à margem de um rio muito largo, que devia atravessar. O barqueiro perguntou-lhe qual era o seu ofício e o que sabia.
- Sei tudo, - respondeu outra vez.
- Então dize-me, por favor, - perguntou o barqueiro, - por quê é que devo sempre ir e vir sem nunca ficar livre?
- Saberás quando eu voltar.
Depois de atravessar o rio, encontrou o ingresso do inferno. Tudo lá dentro era negro e cheio de fuligem. O Diabo não estava em casa, estava apenas sua avó, sentada numa grande poltrona.
- Que desejas? - perguntou-lhe. - E não tinha aparência de má.
- Desejo os três cabelos de ouro do Diabo, - respondeu ele; - se não os conseguir, não poderei conservar minha mulher.
- Pedes demasiado! - disse ela. - Se ao chegar, o Diabo te encontrar aqui, ele te esfolara vivo. Mas como tenho pena de ti, verei se posso ajudar-te.
Transformou-o numa formiga e disse-lhe:
- Agora esconde-te nas dobras da minha saia, ai estarás seguro.
- Muito bem, - exclamou o rapaz, - mas há também três coisas que gostaria de saber: primeiro, porque é que secou um chafariz do qual costumava jorrar vinho e agora nem mesmo água jorra; segundo, porque é que uma macieira, que sempre dava maçãs de ouro, agora nem folhas mais dá; terceiro, porque é que um barqueiro deve sempre ir e vir sem nunca se livrar.
- Essas são perguntas muito difíceis - respondeu a velha; - mas fica quietinho e calado e presta bem atenção ao que diz o Diabo quando eu lhe arrancar os cabelos de ouro.
Quando anoiteceu, o Diabo voltou para casa. Mal entrou na porta, percebeu no ar algo que não era puro.
- Sinto cheiro, sinto cheiro de carne humana, - resmungou, - há algo estranho aqui!
Revistou todos os cantos mas não conseguiu encontrar nada. A avó então repreendeu-o:
- Agora mesmo acabei de varrer e arrumar a casa; e tu, mal chegas, já te pões a fazer desordens; andas sempre com cheiro de carne humana nas narinas! Vamos, senta-te e come o teu jantar!
Quando terminou de comer e beber, o Diabo sentiu cansaço; reclinou a cabeça no regaço da avó, pedindo-lhe que lhe fizesse cafuné. Não demorou muito e ferrou no sono, bufando e roncando tranquilamente. Então a velha pegou um cabelo de ouro, arrancou-o e guardou-o de lado.
- Ai! - gritou o diabo, - que é que estás fazendo?
- Ah, tive um pesadelo, - respondeu a avó, - e sem querer agarrei e puxei teus cabelos.
- O que sonhaste? - perguntou o Diabo.
- Sonhei que um chafariz, do qual sempre jorrava vinho, secou, e nem mais água jorra. Por quê será?
- Ah, se o soubessem! - disse o Diabo. Há no chafariz um sapo, debaixo de uma pedra, se o matarem voltará a jorrar vinho.
A avó recomeçou a fazer-lhe cafuné; ele adormeceu de novo, roncando de fazer estremecer os vidros. Ela então, arrancou-lhe o segundo cabelo.
- Ui! - gritou zangado, - mas, que estás fazendo?
- Não te zangues, - respondeu ela, - fiz isto em
- E que sonhastes mais? - perguntou o Diabo.
- Sonhei que havia, num reino, uma árvore, a qual primeiro dava maçãs de ouro e agora nem folhas dá mais. Por quê será?
- Oh, se o soubessem! - respondeu o Diabo. - Há um rato que lhe está roendo a raiz; se o matarem, voltará a produzir maçãs de ouro, mas se o rato continuar roendo-lhe a raiz, ela secará para sempre. Agora deixa-me em paz com teus sonhos; se me interromperes o sono outra vez, levarás uma bofetada.
A avó acalmou-o e voltou a fazer-lhe cafuné, até que ele adormeceu e começou a roncar. Então, agarrou o terceiro cabelo de ouro e arrancou-o. O diabo levantou-se de um pulo, gritando que havia de lhe pagar, mas ela conseguiu acalmá-lo novamente e disse:
- Que culpa tenho de ter maus sonhos?
- Que é que sonhaste ainda? - perguntou, com certa curiosidade o Diabo.
- Sonhei que um barqueiro queixava-se de ter sempre de ir e vir, sem nunca se livrar. Por quê será?
- Ah, o tolo! - respondeu o Diabo; - quando alguém quiser atravessar o rio, ele que lhe meta nas mãos o varejão, assim o outro ficará sendo o barqueiro e ele estará livre.
Tendo arrancado os três cabelos de ouro e obtido resposta para as três perguntas, a avó deixou o velho Satanás dormir sossegado até à manhã do dia seguinte.
Assim que ele saiu de casa, a velha tirou a formiga das dobras de sua saia, restituindo-lhe o aspecto humano.
Aqui tens os três cabelos de ouro, - disse, - e certamente ouviste as respostas do Diabo às tuas três perguntas.
- Ouvi, sim - disse o rapaz, - e as gravei na memoria.
- Bem, agora não precisas mais nada, - disse a velha; - podes, portanto, seguir teu caminho.
O rapaz agradeceu contentíssimo à velha por tê-lo tirado das dificuldades e deixou o inferno, muito feliz por ter-se saído tão bem.
Quando chegou à margem do rio e encontrou o barqueiro, que aguardava a resposta prometida, disse-lhe:
- Leva-me primeiro para o outro lado; depois eu te direi o que deves fazer para livrar-te.
Tendo atingido a-outra margem, deu-lhe o conselho do Diabo:
- Quando vier alguém e quiser atravessar o rio, dá-lhe o teu varejão e safa-te.
Continuou andando, andando, até chegar à cidade onde estava a macieira estéril; ali também a sentinela aguardava a resposta; disse-lhe então o que ouvira do Diabo:
- Matai o rato que está roendo as raízes da árvore e ela tornará a produzir maçãs de ouro.
A sentinela agradeceu e presenteou-o com dois jumentos carregados de ouro. Por fim, chegou à cidade do chafariz seco. Repetiu à sentinela o que ouvira do Diabo:
- Há um sapo debaixo de uma pedra, no fundo de chafariz; é preciso encontrá-lo e matá-lo para que torne a jorrar vinho em abundância do chafariz.
A sentinela agradeceu e deu-lhe outros dois jumentos carregados de ouro.
Finalmente, o filho da sorte chegou à casa de sua mulher, que ficou radiante por tornar a vê-lo e ouvir contar como tudo lhe correra bem. Depois, foi entregar ao Rei o que este exigira: os três cabelos de ouro do Diabo. Vendo, porém, os quatro jumentos carregados de ouro, o Rei alegrou-se muito e disse:
- Agora estão satisfeitas todas as condições, portanto, podes ficar com minha filha. Mas, dize-me, querido genro) de onde provém todo esse ouro? Esse imenso tesouro?
- Atravessei um rio, - respondeu o rapaz, - e encontrei-o na areia na margem.
- Poderei, também, ir buscar um pouco para mim? - perguntou o rei cobiçoso.
- Quanto quiserdes, - respondeu-lhe ele. - No rio há um barqueiro; pedi-lhe que vos transporte para a outra margem e aí podereis encher quantos sacos desejardes.
Cheio de cobiça, o Rei pôs-se, imediatamente, a caminho; quando chegou ao rio, pediu ao barqueiro que o transportasse para a outra margem. O barqueiro encostou o barco no ancoradouro e mandou que se sentasse. Ao chegar à margem oposta, o barqueiro entregou-lhe o varejão, pulou fora do barco e desapareceu.
E, com isso, o rei teve de ser o barqueiro, em punição de seus pecados.
- E ainda continua lá, indo e vindo feito um barqueiro?
- Como não? Quem mais conhecia a história para o livrar do castigo?

Fonte: http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/os_tres_cabelos_de_ouro_do_diabo

Outubro - Além do Bastidor








Conto: Além do Bastidor

Bordado por: Ana Deiste
55 (31) 3461 5595 / alcdeister@gmail.com
Conto: Além do Bastidor 
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Ana Deister baseado em Marty Noble

 "Agora que já tinha o caminho, todo dia a menina descia para o bordado"

Livro: Uma Ideia Toda Azul. Editora Global, 1979.
Link: http://dicasdeportugues.com/alem-do-bastidor/

Novembro - A Agulha, a Linha e o Alfinete








Conto: A Agulha, a Linha e o Alfinete

Bordado por: Fátima Coelho
fatitocoelho@yahoo.com.br
Autor: Machado de Assis
Desenho: Fátima Coelho


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir
que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar
insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não
tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe
deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é
que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem
os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro,
dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por
você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo
adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e
ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se
disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao
pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano,
pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.
Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor
das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana —
para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que
esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os
dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo
enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está
para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta,
calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não
se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a
costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no
outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a
vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto
necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um
lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a
linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa,
fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com
ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira,
antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e
não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai
gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que
não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a
cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Dezembro - Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento








Conto: Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento

Bordado por: Rosângela Gualberto
rosangelagualberto@uol.com.br
Autor: Marina Colasanti
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer baseado em Marina Colasanti

“Com o homem que desvendar meu labirinto, só com esse casarei, diz ela
procurando-lhe o olhar."

Livro: Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento. Global Editora, São Paulo,
2006.


domingo, 22 de novembro de 2015

Contos Bordados está pronto!



Nosso Calendário 2016 esta pronto!

Peça já o seu!

Zélia Melo: melozelia@terra.com.br
Neuza Oli Veira: nemabh25@gmail.com
Vani Luiza: vanicipriano@gamail.com
Selma Fabrini: amlesfab@gmail.com
Regina Drumond: reryreine@gmail.com
Umeko Marubayashi: umemaruba@yahoo.com.br
Valéria Pimenta: valeria.arteterpia@gmail.com
Marie-Thérèse Pfyffer: mtpfyffer@gmail.com
Ilka Finotti: ilkafinottiw@gmail.com
Ana Deister: alcdeister@gmail.com
Fátima Coelho: fatitocoelho@yahoo.com.br
Rosângela Gualberto: rasangelagualberto@uol.com.br



sábado, 6 de dezembro de 2014

Calendário 2015 - Contos Bordados




Ateliê de Arte Terapia Caminho dos Sonhos apresenta:


Calendário 2015 -  Contos Bordados


Valor: R$30,00 cada

Tamanho: 30 X 30 cm
Impressão: Papel Couché 


Contos que estão no calendário 2015: 
  • A Lenda do Guaraná - Bordado por: Zélia Melo. E-mail: melozelia@terra.com.br
  • O Papagaio Real - Bordado por: Neuza Oli Vieira. E-mail: nemabh25@yahoo.com.br
  • O Alfaiate Desatento - Bordado por: Vaní Luiza Cipriano. E-mail: vanicipriano@gmail.com
  • Pele de Asno - Bordado por: Selma Fabrini. E-mail: amlesfab@gmail.com
  • O Rouxinol e o imperador - Bordado por: Regina Drumond. E-mail: reryreine@gmail.com
  • A Vitória Régia - Bordado por: Umeko Marabayashi. E-mail: umemaruba@yahoo.com.br
  • A Flauta Mágica: O Uirapuru - Bordado por: Valéria Pimenta. E-mail: valeria.arteterapia@gmail.com
  • Dragão Amarelo Trovão - Bordado por: Marie-Thérèse Pfyffer. E-mail: mtpfyffer@uol.com.br
  • Os Sete Cegos Sábios e o Elefante - Bordado por: Ilka Finotti. E-mail: ilka@ilka.finotti.nom.br
  • As Fadas - Bordado por: Ana Deister. E-mail: alcdeister@gmail.com
  • A Gralha Azul - Bordado por: Fátima Coelho. E-mail: fatitocoelho@yahoo.com.br
  • A Quarta viagem de Simba o Marujo - Bordado por: Rosângela Gualberto.E-mail rosangelagualberto@uol.com.br

Peça já o seu!!
ilka@ilka.finotti.nom.br

A Lenda do Guaraná - Uma lenda indígena

Bordado por: Zélia Melo
melozelia@terra.com.br
55 31 9984-5072
Desenho: Zélia Melo


Um casal de índios pertencente a tribo Maués, vivia junto há muitos anos sem ter filhos, mas desejavam muito ser pais. Um dia pediram que Tupã lhes desse uma criança para completar aquela felicidade. Tupã, o rei dos deuses, sabendo que o casal era cheio de bondade, lhes atendeu o desejo trazendo-lhes um lindo menino.
O tempo passou rapidamente e o menino cresceu bonito, generoso e bom. No entanto, Jurupari, o deus da escuridão, sentia uma extrema inveja do menino e da paz e felicidade que ele transmitia; assim decidiu ceifar aquela vida em flor.
Um dia, o menino foi coletar frutos na floresta e Jurupari se aproveitou da ocasião para lançar sua vingança. Ele se transformou em uma serpente venenosa e mordeu o menino, matando-o instantaneamente.
A triste notícia se espalhou rapidamente. Neste momento, trovões ecoaram e fortes relâmpagos caíram pela aldeia. A mãe, que chorava em desespero, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã, dizendo que ela deveria plantar os olhos da criança e que deles uma nova planta cresceria dando saborosos frutos.
Os índios obedeceram aos pedidos da mãe e plantaram os olhos do menino. Neste lugar cresceu o guaraná, cujas sementes são negras, cada uma com um arilo em seu redor, lembrando olhos humanos.



O Papagaio Real - Câmara Cascudo

Bordado por: Neuza Oli Vieira
nemabh25@yahoo.com.br
55 31 3337-7026
Desenho: Demóstenes Vargas


Há muitos anos atrás, numa pequena cidade de um país bem longe viviam duas irmãs. Eram muito diferentes uma da outra. A mais nova era uma jovem de bons sentimentos, alegre e feliz com a sua vida. Mas a mais velha era uma inveja só.

A irmã mais velha vivia espreitando a outra. Certa noite ouviu um barulho diferente vindo do quarto da irmã. Pé ante pé colou seu ouvido na porta do quarto da irmã e não satisfeita  olhou através da fechadura. O que viu foi estranho, pois no meio do quarto havia uma grande bacia com água. E logo em seguida uma surpresa: um grande papagaio que voando rápido passou pela janela e entrou no quarto em direção à bacia. Banhou-se e bem devagar foi- se transformando em um lindo jovem. Os dois jovens então começaram a conversar e ali ficaram por um longo tempo.

A irmã invejosa ficou enfurecida. Um príncipe se encantando pela tonta da irmã? E logo pensou em um plano. Passou o dia seguinte atarefada juntando cacos de vidro. Colocou-os no peitoril da janela e dentro da bacia sem que a irmã percebesse. E aguardou a noite chegar!

Não demorou nada e o papagaio chegou. Já no peitoril sentiu suas patas arderem. Pensando em se aliviar na água da bacia acabou cortando-se ainda mais. A jovem sem entender o que estava acontecendo ficou aterrorizada. Nesta noite o papagaio não se transformou em príncipe. Com dificuldade voou até a janela e lhe disse:
-         Ah, ingrata! Porque tanta maldade? Esta seria a última noite do meu encanto, depois nunca mais voltaria a ser um papagaio. Agora vai demorar a ter fim este meu sofrer. Para me ver novamente só se for ao Reino de Acelóis.

E dizendo isto bateu asas e sumiu no horizonte deixando a jovem atônita e desesperada. Ela viu que aquela armadilha só poderia ter sido feita pela irmã. No mesmo instante sentiu que era hora de partir. Saiu pelo  mundo à procura de seu amado. Mas, onde seria aquele Reino de Acelois? Andou por muitos lugares, sempre perguntando onde ficava o Reino de Acelóis. Ninguém sabia!

Uma tardinha, já muito cansada de andar e perguntar a todos pelo Reino de Acelóis viu que a noite chegava e ela não tinha onde pernoitar. Subiu numa grande arvore do caminho e ficou protegida pelas folhas. Já bem tarde da noite ouviu sons estranhos. Eram animais de aspectos amedrontadores que ela nunca havia visto.
-     E você de onde vem?
-         Eu? De longe! Do Reino da Lua!
-         E você?
-         Venho do Reino do Sol! E assim a conversa  se prolongou noite à dentro.

No dia seguinte pegou a estrada novamente. Nunca deixava de perguntar sobre o reino e o castelo do jovem príncipe.  Acostumou-se a subir nas arvores para fugir dos animais ferozes e também para poder dormir tranquila. E o tempo passou. E um dia, estando protegida em outra arvore de flores grandes e galhos protetores, ouviu outra conversa daqueles andarilhos estranhos:
-         E você? De onde vem?
-         Eu? Venho do Reino da Estrela!
-         E você?
-         Eu? Venho do Reino de Acelóis e trago novidades! O príncipe de Acelóis está muito doente, pobre coitado!

A jovem prestou bem atenção na conversa e ficou quietinha no alto da arvore.  Antes do sol nascer já estava pronta para pegar o caminho. Agora sabia que Acelois estava mais perto.  Mas o dia passou e ela não conseguiu nenhuma informação. De noitinha parou e buscou outra grande arvore e subiu para passar a noite. E ouviu novamente outra conversa.
-         E você de onde vem?
-         Eu venho do Reino de Acelóis.
-         E como vai o príncipe?
-         Vai mal, muito mal. Acho que seu caso não tem remédio!
-         Ora, tem jeito sim. O remédio é o príncipe beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma jovem que o ame ardentemente. Pena que eu esteja atrasado em minha caminhada. Senão... voltaria lá para informar sobre este remédio.

A jovem não acreditou no que ouvia. Assim que o dia começou a raiar ela desceu da arvore e pegou a estrada. Pouco tempo depois já se encontrava no Reino de Acelóis. Chegou ao grande palácio. Lá procurou pelo Rei e ofereceu seus préstimos para salvar o jovem príncipe. Mas ela tinha uma condição, pois sabia que o rei não acreditaria em seus sentimentos e também por ser uma jovem pobre.  Seu preço? Metade do Reino escrito em documento real. O Rei relutou, mas queria salvar seu único filho.

Assinados os papéis a jovem se dirigiu aos aposentos reais. Furou seu dedo, colheu três pingos de seu sangue, colocando-os em um copo com água. Fez o príncipe beber. Foi só beber e sentiu-se melhor. Em poucos minutos já estava conversando e assentado em seu leito. Reconheceu a jovem e abraçou-a ternamente. O Rei ficou radiante de alegria, mas quando o príncipe lhe disse querer casar com aquela jovem, dona de seu coração desde os tempos de sua vida de papagaio, o Rei não deu o seu consentimento.

Mas como a jovem era firme e decidida já foi logo dizendo ao Rei:
-         Majestade! Agora eu sou uma moça rica! Tenho metade deste reino e aqui está o documento! Como não posso me casar com o príncipe? A não ser que o senhor queira dividi-lo ao meio. Eu levo então uma metade!
O Rei ao ouvir aquelas palavras viu que a jovem não era de brincadeira. Era decidida e firme em seus propósitos. Finalmente consentiu no casamento. As bodas foram preparadas e durante três dias e três noites houve festa no reino de Acelóis para todos os amigos. Tinha comes e bebes a fartar e muitos músicos. Foi um lindo casamento.

Estive lá. Trouxe uma cestinha para vocês de deliciosos frutos silvestres recheados de doce de leite de cabra, pequenas codornas feitas no leite, geleias de amoras silvestres misturadas com mel de abelhas negras do Reino de Acelóis. Vim com cuidado pois as estradas são estreitas e os riachos muitas vezes transbordam à época das cheias. Mas... um imprevisto. Na última pinguela uma tábua se soltou, escorreguei e não consegui segurar a cestinha que, caindo na água, correu riacho abaixo...


Resumo feito por Neuza Vieira de Oliveira do conto recontado por Luis da Câmara Cascudo  - Contos tradicionais do Brasil 

O Alfaiate Desatento - um conto árabe

Bordado por: Vaní Luiza Cipriano
vanicipriano@gmail.com
55 31 3226-8207
Desenho: Demóstenes Vargas


Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena. Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, toda esfarrapada, que usava o dia inteiro dentro de casa.
         As pessoas comentavam: "Um homem que anda tão mal vestido, não pode ser um profissional competente. Esse alfaiate não deve ser bom".
         Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
         O alfaiate foi até o sótão da casa, onde há muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para a sua filha.
         No caminho de volta para casa viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca tinha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
         Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.
         Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
         - Onde foi que você comprou este manto? No Oriente, na ilha de Java?
         - Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
         - Então, nós também queremos um manto lindo como este.
         E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa.         Eram tantas pessoas, e tantos mantos ele fez, que acabou ficando rico.
         Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim.
         Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profissional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
         Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço de tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as costuras, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
         Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber:
         - Onde foi que você comprou este casaco? Na Austrália, no pólo norte?
         - Não, eu mesmo o fiz.
         E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.
         Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemoração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário - lá  ia ele com o casaco.
         Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia encomendas. Ele ficou pobre.
         Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
         - Onde foi que você comprou este colete? No Afeganistão? Na Terra do Fogo?
         - Não, eu mesmo o fiz.
          E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico, Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
         Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava perfeito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
         Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. Mas não deixava de ser aquela pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
         Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre outra vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
         O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superultrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio de peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele.
         E tantos ele fez, que ficou rico.
         Mas continuava sendo aquela pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
       Por muito muito tempo.
         E ele ficou pobre.
         Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com todas as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
         O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?

         Pois o contador de histórias que narrou este conto para mim disse que cada um de nós é que tinha que inventar no que o alfaiate transformou aquele paninho precioso, porque esta é uma história que continua com cada um.
         Existem muitas formas de contar a história desse alfaiate. É por causa dele e do seu botão que este conto sempre foi lembrado e continuará sendo contado para sempre, noite e dia, em qualquer lugar do mundo onde haja gente.
         Porque sempre vão existir pessoas que não prestam atenção em algumas coisas.
         E sempre vão existir coisas que guardam seu brilho num lugar cada vez menor e mais profundo.


In: Regina Machado. “A Formiga Aurélia e Outros Jeitos de Ver o Mundo”.
Cia das Letrinhas, 2005.