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Bordado por Neuza Oli Veira |
Era uma vez um
sacerdote brâmane que vivia na Índia. Era bom de coração pois não suportava ver
ninguém sofrendo: homem ou animal. Era estimado por todos. Andava por seu país
com o objetivo de ajudar a quem precisava. Certo dia passou por uma região e
viu um enorme tigre preso sobre uma arvore frondosa. Por ser feroz estava em
uma jaula resistente e muito bem fechada. Só quem estivesse do lado de fora
poderia abri-la.
- Irmão
Brâmane! Irmão!
O sacerdote parou,
olhou para os lados e logo viu que o som vinha das proximidades da jaula do
tigre. Era uma voz triste e queixosa.
- Tenha
piedade irmão! Piedade! Não deixe que eu fique preso nesta horrível jaula.
Tenho muita sede e fome. Abra para que eu possa saciar minha sede. Aqui dentro
está uma verdadeira fornalha. Tenha piedade de mim Irmão Brâmane!
O brâmane que sabia
da ferocidade de um tigre lhe disse: - Ah! Irmão tigre! Você está preso
porque é feroz e deseja matar as pessoas. E além do mais, saindo daí irá me
comer, não é?
- Eu não
faria isso com você irmão brâmane! Não seria tão ingrato! Tenha piedade de um
ser vivo que está morrendo de sede.
O
brâmane, sentindo muita pena do pobre tigre abriu a porta da jaula. E foi neste
exato momento que o tigre, de um salto só pulou sobre ele dizendo: - A
água fica para depois. Agora vou comê-lo todinho.
O brâmane gritou
com o tigre lembrando do trato feito.
- Eu não
cumpro tratos. Estou faminto e vou comê-lo agora! E além do mais a minha
natureza é esta: comer quando tenho fome!
E foi neste
instante que o sacerdote brâmane lembrou de consultar outros seres que pudessem
dar sua opinião e que estavam ali por perto. O tigre, sem alternativa,
concordou, mas foi dizendo que se todos concordassem ele o comeria.
O tigre e o brâmane
se dirigiram a uma figueira e perguntaram: - Ó figueira! Precisamos de sua
opinião. Este tigre estava enjaulado. Tinha muita sede e pediu-me que abrisse a
portinhola da jaula para que ele saísse
para tomar água. Prometeu que não me comeria. Mas agora.... a história é outra.
Você acha correto?
A figueira
paralisou o movimento de seus galhos e tristemente falou: - O homem sempre
usa a minha sombra para fugir ao calor do sol, mas espalha as minhas folhas e
pega meus frutos. Não cria laços. É ingrato. Minha opinião é que o tigre deve
comê-lo sim!
O tigre muito
alegre se dirigiu ao brâmane para comê-lo ali mesmo. O brâmane, entretanto,
lembrou outros seres seriam consultados. Encontraram-se com um camelo.
- Irmão
Camelo! Irmão Camelo, - disse o Brâmane, - gostaria de ter sua opinião!
Contou a mesma
história ao camelo.
- Ah! - disse o
camelo - quando eu era jovem e trabalhava sem parar o meu amo me dava alimento
e abrigo. Agora sou velho, não tenho mais a mesma energia. E ele continua a
colocar cargas as mais pesadas sobre o meu pobre lombo, me bate e me deixa com
fome! O tigre deve comê-lo!
E o Brâmane mais uma
vez lembrou do trato que haviam feito. Consultaria outros seres. Bem próximo
encontraram um boi velho. Estava desanimado, deitado ao longo da estrada. O
sacerdote brâmane se dirigiu a ele e perguntou contando-lhe toda a história.
O boi ouviu
pacientemente a narração e disse: - Quando era jovem meu amo me
alimentava, abrigava e eu era muito considerado. Mas agora sou velho e ele se
esqueceu do que fiz por ele. Estou nesta estrada esperando a morte! Estou com o
tigre. O brâmane deve ser devorado!
Mais adiante
encontraram uma grande águia.
- Irmã Águia!
Irmã Águia! Venha dar sua opinião! É sobre coisa séria.
A águia ouviu a
história do brâmane e disse que os homens nem sempre foram leiais com ela, pois
ao vê-la desejam capturá-la ou mesmo matá-la. Seus ninhos, nos altos dos
rochedos são sempre violados. Roubam seus ovos e filhotes. Os homens são
extremamente impiedosos. Sua opinião era de que o tigre deva comer o brâmane.
O tigre sabia que
teria uma bela refeição. Sentiu que ali os animais tinham mágoa do homem.
Restavam somente mais duas opiniões. Continuaram a caminhar até ás margens de
um rio e encontraram um velho jacaré que estava se beneficiando com os raios
quentes do sol. O brâmane contou-lhe novamente a história. A resposta dele
mostrou que também tinha lá suas mágoas. - Não tenho sossego. Nunca matei
homem algum, mas se coloco meu focinho para fora da água logo vem um humano
querendo me machucar ou mesmo matar. Os homens não dão trégua. O tigre deve
matar o brâmane.
O brâmane ainda
lembrou ao tigre faminto que ainda restava uma última opinião. E continuaram a
caminhar. Encontraram o chacal que andava por ali. O brâmane fez a mesma
pergunta e o chacal foi logo perguntando: - Jaula? Que jaula? Não estou
entendendo o que falam. Onde estava esta jaula, que tipo era? Grande? Pequena?
O brâmane contou
toda a história desde o momento em que vira o tigre e lhe perguntou se achava
justa esta atitude do tigre. - Meus amigos! Não posso dar nenhuma opinião
se não conhecer bem o local onde tudo aconteceu. Preciso ver a jaula, como
estava, como você chegou ao local e muitos outros detalhes. Vamos até lá.
E os três: o
brâmane, o tigre e o chacal se dirigiram até a entrada da cidade para ver como
tudo havia começado.
- A jaula é
esta mesma, - perguntou o chacal?
- Sim, - responderam
o tigre e o brâmane.
- E onde
estava o amigo tigre? E onde estava você brâmane?
- Eu estava
dentro da jaula? Quer ver? - E num salto rápido o tigre entrou novamente na
jaula. O brâmane se colocou próximo dizendo que estava naquele mesmo pedaço de
chão.
O chacal continuou
suas indagações: - E você tigre porque não saiu sozinho? A porta estava aberta
ou fechada? Ah, estava fechada e com o seu ferrolho torcido. - Fez com que o
brâmane torcesse o ferrolho da jaula, estando o tigre lá dentro.
E assim o chacal
resolveu a questão dizendo: - Você tigre deverá aprender a não ser malvado e
ingrato. Como pode ter pensado em matar alguém que foi tão misericordioso com
você? Agora fique aí dentro da jaula.
E o chacal
continuou seu caminho, o brâmane alegre com a esperteza do chacal seguiu para
outro lado e o tigre ficou onde estava – preso!
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