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Bordado por Vani Luíza Cipriano |
No início dos tempos, quando foram criados pelo Ser
Supremo – KANANCIUÉ - , os Karajá eram imortais. Viviam felizes como
peixes – aruanãs. Não conheciam nada que não fosse dos rios e das águas. Não
conheciam o sol, nem a lua, nem as plantas. Nem animal algum que não fosse dos
rios.
No fundo do rio
onde viviam havia um buraco pelo qual vinha uma luz que os fascinava. Essa luz
ressaltava as cores das escamas e de tudo que existia por perto. Quando se
aproximavam daquele buraco, ficavam curiosos. Tentavam ver com ansiedade o que
era aquilo. Por causa da luminosidade, não conseguiam divisar o que existia
além do buraco.
Como seria do outro
lado? Perguntavam-se.
Mas o Ser Supremo
havia proibido que entrassem ali. Senão, perderiam a imortalidade. E apesar da
tentação, eles obedeciam fielmente.
Certo dia, um jovem
Karajá, um aruanã mais audacioso, ousou e foi ver o que existia do outro lado
daquele buraco luminoso. Ficou surpreso quando chegou às areias brancas do rio
Araguaia e descobriu encantado um mundo maravilhoso, totalmente diferente do
seu. Uma paisagem deslumbrante.
Viu o céu de um
azul profundo com um Sol radiante iluminando e aquecendo a natureza. Pássaros
multicoloridos se misturavam no ar com muitos matizes. Escutou a música do
canto das araras, periquitos e sabiás. Muitos animais estavam em paz, um do
lado do outro: tamanduás, onças, cutias. Nas campinas, flores perfumadas. Nas
florestas, árvores carregadas de frutos.
O jovem Karajá
andou por essas maravilhas até o anoitecer, quando, então, descobriu outro
cenário ainda mais bonito: a Lua despontava prateada iluminando as
montanhas ao longe. Constelações de estrelas iluminavam o céu.
Ele passou a noite
deslumbrado até ver renascer o Sol no horizonte. Resolveu voltar ao buraco
luminoso, descrever para os seus irmãos e irmãs peixes tudo que tinha visto.
Com os olhos cheios
de beleza, contou o que tinha acontecido e o que tinha observado:
__ Passei
pelo buraco luminoso, descobri um mundo que nunca havia imaginado e que
vocês também não podem imaginar. Com alegria no coração, contemplei o Sol e os
animais. Os campos e as florestas. Sob a luz da Lua, vi as montanhas e muitas
estrelas. Escutei música vinda dos pássaros e dos riachos. Vamos todos até lá?
Todos os seus
irmãos Karajá, mesmo sem entender tudo que ouviram, quiseram logo acompanhar o
jovem afoito. Mas os mais experientes, os anciãos, disseram com grande
sabedoria:
- Irmãos e irmãs,
temos que respeitar nosso Criador, que nos quer bem e nos fez imortais assim
como ele. Vamos falar com ele e pedir-lhe a permissão.
Todos os aruanãs
concordaram e assim fizeram. Depois de ouvi-los, o Criador – Kananciué –
respondeu, com um pouco de tristeza por causa da desobediência do jovem:
- Entendo que
queiram transpor o buraco luminoso, que os levará deste mundo a outro de cores
e beleza. Lá, poderão contemplar a majestade do Sol, o esplendor das estrelas,
a suavidade da Lua. Descobrirão flores, frutos e animais. Poderão se divertir e
deliciarem-se com as águas claras do rio Araguaia e suas areias brancas. Dançar
ao som do canto dos pássaros. Mas revelo a vocês o que não sabem, nem veem.
Toda a beleza naquele mundo é efêmera como a borboleta das águas que conhecem,
que nasce hoje e desaparece amanhã. Os seres de lá não são como vocês: nascem,
crescem, envelhecem e caminham para a morte. São mortais. Vocês ganharão a
liberdade, mas perderão a imortalidade. A decisão é de vocês. O que decidem? O
que escolhem?
Houve um grande
silêncio. Todos olharam para o jovem que descobrira o mundo da liberdade. Todos
estavam fascinados com a possibilidade de viver a beleza, confirmada pelo Ser
Supremo – Kananciué . Então, responderam:
- Sim, pai,
queremos ir viver no paraíso encantado dos mortais.
O Ser Supremo falou
com eles pela última vez:
- Aceito a decisão
de vocês porque acima de tudo prezo a liberdade. Vocês trocarão a imortalidade
pelo dom precioso da liberdade. Saibam que quando passarem por aquele buraco,
vocês serão mortais, mas totalmente livres. Não deixem que lhes roubem a
liberdade.
E todos aqueles
aruanãs passaram entusiasmados pelo buraco luminoso para chegar ao mundo da
beleza efêmera e alegrias finitas.
Até hoje os Karajá
vivem naquele paraíso, às margens do rio Araguaia. Concentram-se,
principalmente, na ilha do Bananal. Tiveram a coragem de renascer como seres de
liberdade, o que continuam sendo até hoje.
Baseado em “Aceitar a morte para ser livre” in “O
casamento entre o céu e a terra; contos dos povos indígenas do Brasil” de
Leonardo Boff. Edição Salamandra.
bom
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