Conto: Rouxinol
do Imperador
Autor: Hans Christian
Andersen
Desenho: Samira
El Bizri Portes
Contato: rosangelagualberto@uol.com.br //
55 (31) 98772 8302
Fotografia, arte e produção: Henry Yu
Desenhos baseados nas ilustrações de
Veruschka Guerra, de livros de contos da Editora Paulus.
O Imperador, ao ouvir estes comentários, reuniu
a corte, chamou o chefe da guarda e disse: “Traga-me o rouxinol ainda hoje,
quero que cante para mim.” Sem perder tempo, o homem saiu à procura do
rouxinol e perguntou à moça da cozinha que disse: “Quão bem ele canta! Sempre
levo comida para a minha mãe e ao voltar para o palácio, sento-me junto de uma
árvore para ouvir o canto do rouxinol.” Foram para o jardim, onde a moça
disse: “Lá está ele!”
“Rouxinol!” chamou a moça. “O Imperador quer ouvir
seu canto, por favor, venha comigo.” O rouxinol bateu as asas e voou para
o ombro do homem que, feliz da vida, montou no cavalo e partiu rumo ao
palácio onde um poleiro dourado estava preparado. Com a corte presente, os
olhares se voltaram para o pequeno pássaro. O Imperador deu sinal para o
pássaro cantar e os dois se tornaram amigos.
O rouxinol era um sucesso em sua gaiola dourada. Certo
dia, o Imperador recebeu do Imperador do Japão uma caixa com os dizeres: Rouxinol
de corda, cuidado: objeto frágil.
Curioso, abriu a caixa e encontrou um rouxinol
mecânico feito de ouro, todo enfeitado com pedras preciosas e brilhantes. Em
volta do pescoço trazia uma fita, com a mensagem: O rouxinol do Imperador da
China nada vale comparado com o rouxinol do Imperador do Japão. E o
Imperador disse: “Basta dar corda que ele começa a mexer, agita a cauda, abre o
bico e canta.” E, no interior do Palácio, todos os elogios se voltaram para o
rouxinol dourado.
Toda a população soube do rouxinol mecânico e
mensagens chegaram para que ele se apresentasse em um concerto público. E o
pássaro de corda foi colocado para cantar. Agradou tanto como o verdadeiro rouxinol
e, além disto, era bonito de ver o seu brilho. O rouxinol mecânico cantou
a mesma canção muitas vezes. Um dia, o Imperador achou que era a vez
do verdadeiro rouxinol também cantar para todos. Mas onde estava o verdadeiro
rouxinol? Tinha voado pela janela, para o jardim. Os cortesãos levaram o
rouxinol de corda para cantar outra vez. E todos os elogios eram para o
rouxinol mecânico: era superior ao rouxinol vivo que foi deixado de lado.
O pássaro artificial recebeu um lugar especial numa
almofada de seda junto à cama do Imperador. Tudo continuou por um ano, até
que o Imperador, a corte e o resto do povo chinês já sabiam de cor cada nota da
canção do pássaro de corda. Mas uma noite, quando o Imperador, deitado na cama
ouvia o pássaro de corda cantando, algo fez croc! dentro dele.
O mecanismo continuou a rodar, mas a música parou. O relojoeiro conseguiu
consertar o pássaro mecânico, porém todos ficaram sabendo que o rouxinol
deveria ser usado poucas vezes; as peças estavam gastas e não era possível
substituí-las sem estragar o som.
Os anos se passaram e uma tristeza abateu-se sobre
o país. O Imperador adoeceu e diziam que ele estava mal. Ele jazia em seu
leito, pálido e imóvel, dizendo: “Música! Quero música! Passarinho dourado, canta,
peço-lhe que cante! Dei-lhe ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato
dourado em seu pescoço com as minhas próprias mãos. Cante, peço-lhe, cante!”
Mas o pássaro era silencio; não havia ninguém para lhe dar corda, e sem corda
não tinha voz. E a Morte olhava para o Imperador.
Tudo era silêncio... Quando, de repente,
diante da janela do quarto do Imperador, soou a mais bela canção. Era o
verdadeiro rouxinol que, empoleirado num ramo lá fora, e sabendo da doença
do Imperador, tinha voltado para aliviar o seu sofrimento e trazer-lhe
esperança. À medida que cantava, o imperador dizia: “Cante, cante mais,
pequeno rouxinol.”
“Cantarei”, e o rouxinol cantou sobre as roseiras,
sobre as árvores, e o Imperador disse: “Como hei de recompensar lhe?” E
respondeu o rouxinol. “Quando cantei para você pela primeira vez, caíram-lhe
lágrimas dos olhos e essa dádiva não posso esquecer. Essas são as joias que não
se compram nem se vendem. Mas agora deve dormir para ficar bom e forte. Cantarei
novamente para você.” E cantou, cantou e o Imperador caiu num sono calmo e
reparador.
“Há de ficar sempre comigo e só cantar quando
quiser”, disse o Imperador. “E, quanto ao pássaro de corda, irei partir
em pedaços.” “Não faça isso,” falou o rouxinol. “Guarde-o. Eu não posso
morar no palácio, deixe-me ir e vir à vontade e, à noite, ficarei neste ramo,
junto de sua janela, e cantarei para você. Hei de trazer-lhe felicidade,
hei de cantar para as pessoas tristes e felizes. Cantarei sobre o bem e o mal,
que sempre estão à nossa volta. Amo o seu coração, e sempre voltarei, mas deve
me prometer uma coisa.”
“O que quiser!” exclamou o Imperador. E o
rouxinol falou: “A única coisa que lhe peço é para não dizer a
ninguém que tem um amigo passarinho que lhe conta tudo, e deve guardar
este segredo.”
Com estas palavras, o rouxinol voou para arvores, e
os criados, que chegaram, pensando ver o Imperador ainda
doente, ficaram espantados ao vê-lo saudável e feliz!
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