Bordado por: Marie-Thérèse
Pfyffer
Autor: Alma Chiesa
Desenho: Demóstenes Vargas
Contato: @duo_leones
Fotografia, arte e
produção: Henry Yu
Mil anos atrás, um grande e maravilhoso castelo se erguia sobre as
falésias de Tumivi. Ali passavam poucos veleiros, havia poucas estradas e
nenhuma levava ao castelo. Só se ouvia o murmúrio do mar, o canto dos pássaros,
e o rugido das feras na floresta imensa. O portão de ferro do castelo nunca se
abria. Diziam que lá vivia o mago Paifú com seu tesouro imenso. Diziam também
que mantinha seus inimigos prisioneiros.
Um dia a linda filha do poderoso rei Efredi sumiu do palácio real.
Procuraram por ela em todo o reino, em vão. Desesperado, o rei foi pedir
conselho ao sábio Dagrebi.
– Vejo a princesa atrás de altas
muralhas, perto do mar e de uma floresta imensa – disse o velho sábio com sua
voz fraca e trêmula. – Apenas o violino e o pincel poderão quebrar o encanto.
Busque o violinista, busque o pintor...
– Como se chamam? Onde posso encontrá-los?
– Não sei... – o velho sábio fechou os olhos e pareceu adormecer.
Naturalmente, o rei não acreditou no conselho do sábio. Juntou um
exército de dois mil guerreiros a cavalo e marchou sobre Tumivi. Atraídos pelo
tesouro, outros guerreiros se juntaram a eles, assim como aldeões armados com
facões e bastões, e uma flotilha de barcos de guerra foi pelo caminho do mar.
Depois de um mês avistaram as muralhas da fortaleza. Circundaram as rochas e
começaram a escalar. De repente, surgiu um enorme redemoinho, que arrancou os
homens e os cavalos da terra, os marinheiros e seus barcos do mar, e os lançou,
urrando de terror, para dentro das muralhas. Caiu o silêncio.
Slem o preguiçoso tinha chegado atrasado e tinha visto tudo de longe. Um
homem alto e magro, vestido com uma longa capa verde, e segurando um violino saiu
da floresta. Um segundo homem apareceu, mais novo, vestido de vermelho, com um
pincel na cintura.
– Rápido! Precisamos salvá-los!
O violinista começou a tocar uma melodia estranha e bela. O pintor
colocou uma tela branca num cavalete e, molhando seu pincel no verde da grama e
no azul do mar, em todos os tons das flores reproduziu a paisagem à sua volta. O
violino chamava os desaparecidos e vibrava como se mil instrumentos estivessem
tocando. As árvores se balançavam ao ritmo da música, os animais se aproximaram.
Com uma pincelada azul, o pintor apagou as muralhas da fortaleza. No mesmo
instante uma nuvem escondeu o castelo e se transformou numa estrada azul. Por
ela chegaram cavaleiros, soldados, aldeões, marinheiros, o rei e a princesa, caminhando
como se estivessem sonhando.
De repente apareceu o mago Paifú, tão furioso que chamas e fumaças saíam
de sua boca. O pintor molhou o pincel numa frutinha preta e fez uma mancha
escura na estrada. Abriu-se um buraco no qual o mago sumiu e o silêncio voltou.
O violinista guardou seu instrumento. O pintor apagou o quadro da tela.
Chorando, Slem caiu de joelhos diante destes homens extraordinários:
– Meus senhores, agradeço por vocês terem salvado a mim, ao meu rei, à
princesa e a todos os outros. O rei é poderoso e generoso. Venham comigo ao
palácio para receber as honras e as riquezas que merecem.
– Não preciso das riquezas de seu rei, tenho meu violino.
– Tenho meu pincel, não desejo mais nada.
– Mas... não querem vir ao palácio?
– Não – disseram os artistas. – Nosso palácio é o mundo e temos ainda
muito que fazer.
Espantado, Slem abriu a boca para dizer algo, mas os dois homens já
haviam desaparecido. Escutou, bem longe, o som do violino e, ao olhar para o
céu, pareceu-lhe que um pincel gigante estava pintando a primeira estrela.
Alma Chiesa
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