sábado, 6 de dezembro de 2014

O Alfaiate Desatento - um conto árabe

Bordado por: Vaní Luiza Cipriano
vanicipriano@gmail.com
55 31 3226-8207
Desenho: Demóstenes Vargas


Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena. Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, toda esfarrapada, que usava o dia inteiro dentro de casa.
         As pessoas comentavam: "Um homem que anda tão mal vestido, não pode ser um profissional competente. Esse alfaiate não deve ser bom".
         Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
         O alfaiate foi até o sótão da casa, onde há muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para a sua filha.
         No caminho de volta para casa viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca tinha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
         Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.
         Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
         - Onde foi que você comprou este manto? No Oriente, na ilha de Java?
         - Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
         - Então, nós também queremos um manto lindo como este.
         E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa.         Eram tantas pessoas, e tantos mantos ele fez, que acabou ficando rico.
         Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim.
         Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profissional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
         Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço de tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as costuras, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
         Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber:
         - Onde foi que você comprou este casaco? Na Austrália, no pólo norte?
         - Não, eu mesmo o fiz.
         E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.
         Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemoração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário - lá  ia ele com o casaco.
         Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia encomendas. Ele ficou pobre.
         Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
         - Onde foi que você comprou este colete? No Afeganistão? Na Terra do Fogo?
         - Não, eu mesmo o fiz.
          E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico, Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
         Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava perfeito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
         Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. Mas não deixava de ser aquela pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
         Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre outra vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
         O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superultrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio de peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele.
         E tantos ele fez, que ficou rico.
         Mas continuava sendo aquela pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
       Por muito muito tempo.
         E ele ficou pobre.
         Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com todas as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
         O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?

         Pois o contador de histórias que narrou este conto para mim disse que cada um de nós é que tinha que inventar no que o alfaiate transformou aquele paninho precioso, porque esta é uma história que continua com cada um.
         Existem muitas formas de contar a história desse alfaiate. É por causa dele e do seu botão que este conto sempre foi lembrado e continuará sendo contado para sempre, noite e dia, em qualquer lugar do mundo onde haja gente.
         Porque sempre vão existir pessoas que não prestam atenção em algumas coisas.
         E sempre vão existir coisas que guardam seu brilho num lugar cada vez menor e mais profundo.


In: Regina Machado. “A Formiga Aurélia e Outros Jeitos de Ver o Mundo”.
Cia das Letrinhas, 2005.

Pele de Asno - Charles Perrault

Bordado por: Selma Fabrini
amlesfab@gmail.com
55 31 3223-2009
Desenho: Selma Fabrini


Em um país  longínquo, vivia um rei que era amado pelos seus súditos, pois era bom e justo para com todos. Sua esposa, a rainha, era de uma beleza incomum e eles viviam felizes no seu castelo. O rei tinha uma especial predileção pelo seu asno, que era tratado com todo carinho e cuidado, pois de suas entranhas jorravam moedas de ouro e prata que garantiam toda sua fortuna.
Mas eis que um dia a rainha amanheceu adoentada. O rei se desesperou! Convocou todos os médicos do reino para que curassem a sua amada esposa. A doença só agravava. A rainha então chamou o rei em seu quarto e lhe segredou que seu fim estava próximo. Também lhe fez um último pedido: que ele se casasse novamente com uma moça tão bela quanto ela. O rei, prometeu. Porém ficou tão amargurado com a morte da esposa amada, que não quis mais saber da companhia de sua única filha. 
Os anos passaram e, uma bela manhã, o rei viu em seu jardim, uma bela jovem que passeava cantarolando por entre os canteiros de flores. Ficou deslumbrado com esta cena. Imediatamente mandou trazer a moça à sua presença. Sua ordem foi acatada e a jovem, muito surpresa, aproximando-se do rei, disse:
- Oh! Meu pai, não me reconhece? Sou sua filha!
- Como você é parecida com sua mãe! – disse o rei abraçando-a. – Sei que não acharei em parte nenhuma do mundo mulher mais bela! Quero que seja minha esposa!
A princesa foi tomada de um súbito horror, por tão escabrosa proposta. Saiu correndo para o seu quarto, invocou a sua fada madrinha e lhe pediu ajuda.
- Fique calma, tenho uma solução para isto. Amanhã bem cedo procure pelo rei e diga-lhe que você o esposará, mas antes ele terá que lhe dar um vestido com as cores do tempo.
Assim fez a princesa e o rei, concordando com o pedido, convocou todos o artesões e fiandeiros do reino. Em pouco tempo, lhe apresentaram um vestido maravilhoso da cor do tempo. Aconselhada pela fada, a princesa,  pediu então um vestido da cor do luar. E, em pouco tempo, o rei depositou aos pés da filha a nova roupa, ainda mais deslumbrante. Desta vez, a princesa pediu um vestido da cor do sol e, ao cabo de alguns dias, o monarca lhe trouxe a mais esplêndida criação com todas as nuances do sol.
A princesa, não acreditando no que seus olhos contemplavam, olhou para seu pai e lhe pediu só mais um tempo. Embora impaciente com as evasivas de sua filha, o rei aceitou.
Quando a fada madrinha viu o vestido, pensou em uma derradeira solução.
- Há um único pedido que você fará seu pai e que ele certamente vai negar. Peça-lhe a pele do seu amado animal, fonte de toda a sua riqueza!
A princesa se encheu de coragem e esperança e, imediatamente, procurou seu pai com tal proposta. Certa de que, finalmente ele desistiria de seu louco projeto, foi para o seu aposento e dormiu tranquila. Ao raiar do dia, o rei entrou em seu quarto e depositou sobre sua cama a carcaça do asno. A princesa sufocou com as mãos um grito de horror! De novo invocou sua madrinha, que, desta vez, lhe aconselhou a fugir para a floresta, escondida sob a pele do asno. Também lhe deu a sua varinha mágica, dizendo-lhe:
- Quando quiseres satisfazer algum desejo, dê um toque com a varinha e tudo será feito.
A princesa vestiu uma roupa velha, besuntou o seu rosto com a cinza de fogão, cobriu-se com a pele do pobre animal e assim, irreconhecível, se embrenhou pela floresta adentro. Caminhou até se sentir cansada e com fome, quando avistou ao longe um lindo castelo. Mais abaixo havia porcos, coelhos e também um pequeno casebre onde morava uma mulher que cuidava dos animais. Aproximou-se, pediu comida e um lugar onde pudesse descansar. A mulher estranhando aquela moça tão maltrapilha lhe deu o que comer e lhe ofereceu trabalho. Ela passaria a cuidar de todos aqueles animais, diariamente!
A princesa, sem ter escolha, concordou. O tempo foi passando. À noite, quando ela terminava seu trabalho, ia para seu casebre e, com um toque da varinha mágica, fazia aparecer todos os seus belos vestidos e suas joias. Então se transformava na bela princesa que sempre fora. Olhava-se no espelho e conseguia se sentir um pouco feliz.
Certo dia o príncipe, morador do lindo castelo do alto da colina, passou pelo casebre. Curioso, foi olhar pela janela. Com grande espanto vislumbrou a mais bela mulher que seus olhos já haviam visto. Era a princesa, vestida com seu vestido, cor do sol. Seus pajens o chamaram para voltar do passeio e o príncipe obedeceu a contragosto mas, desde este dia, não parou de pensar nela. Estava apaixonado! A rainha, sua mãe, se preocupava pois, o príncipe não saía de seus aposentos, não queria se alimentar e só falava nnuma moça encantadora que morava naquela choupana. Sua mãe, consolava-o dizendo que naquele casebre só morava uma pobre e maltrapilha empregada.
Certo dia, o príncipe manifestou a vontade de comer um bolo, mas teria que ser feito pelas mãos da moça do casebre. Sua mãe mandou cumprir o desejo do príncipe, na esperança que ele ficasse curado. Ao receber a ordem, a princesa preparou o mais delicioso bolo e deixou um de seus anéis se misturar à massa. Bolo pronto, bolo encaminhado! Ao recebê-lo, o príncipe começou a saboreá-lo até que seus dentes bateram em algo duro. Cuspindo, o viu brilhar no seu prato um anel de diamantes e rubis. Chamou a sua mãe:
- Quero me casar com a dona deste anel!
Então, por ordem de suas majestades o rei e a rainha, todas as donzelas do seu reino, e de outros lugares, foram convocadas  ao castelo para colocar o anel em seu dedo. Aquela, cujo anel coubesse sem dificuldade, seria a esposa do príncipe, Muitas moças, belas, e não tão belas, nobres e não tão nobres, correram ao palácio. Uma a uma foram tentando colocar o anel, porém, não servia em nenhuma. O príncipe já estava ficando desanimado e triste, mas eis que chegou a vez da princesa. Com toda tranquilidade, colocou no dedo o anel, que serviu como era de se esperar. O príncipe com grande alegria, ajoelhou-se aos seus pés, e pediu-a em casamento.

Houve festa por uma semana, e para alegria da princesa, seu pai veio para as bodas, reconciliou-se com ela, dando-lhe sua benção. Viveram felizes naquele reino, com muita prosperidade e amor!                    

O Rouxinol e o Imperador - Hans Christian Andersen

Bordado por: Regina Drumond
reryreine@gmail.com
55 31 8885-9030
Desenho: Regina Drumond


Era uma vez um rouxinol que cantava nos jardins do Palácio Imperial  da China e, como nenhum outro pássaro deixava as pessoas deslumbradas com suas maravilhosas canções.  Ao ouvir o canto do rouxinol as pessoas  diziam: Isto é maravilhoso!  Sábios escreviam sobre o palácio e o canto do rouxinol sempre era elogiado pelo povo da cidade.  Um dia chegou aos ouvidos do Imperador que  apesar de todas  as maravilhas que existiam em seu reino, nada se comparava  com o canto do rouxinol .
O  imperador ao ouvir estes  comentários  reuniu a corte, chamou o chefe da guarda e disse: Traga-me o rouxinol ainda hoje, quero que cante para mim. E... sem perder  tempo o homem saiu à procura do rouxinol  E perguntou a moça da cozinha que disse :  Quão bem ele canta! Sempre levo comida para a minha mãe e ao voltar para o palácio sento junto de uma árvore para ouvir o canto do rouxinol. E foram para o jardim  onde a moça disse: Lá está ele
Rouxinol! — chamou a moça. O Imperador quer ouvir seu  canto, por favor, venha comigo.  O rouxinol bateu as asas e voou para o ombro do homem, que feliz da vida montou no cavalo e partiu  rumo ao palácio onde um poleiro dourado  estava preparado para o rouxinol. Com a corte presente os olhares  se voltaram para o pequeno pássaro . O Imperador deu sinal para o pássaro cantar e os dois se tornaram  amigos.
O rouxinol era um sucesso em sua gaiola dourada .Certo dia, o Imperador  recebeu do Imperador do Japão uma caixa com os dizeres: ROUXINOL de corda, cuidado: objeto frágil.
Curioso, abiu a caixa e encontrou  um rouxinol mecânico feito de ouro , todo enfeitado com pedras preciosas e brilhantes. E o Imperador disse: basta dar corda que ele começa a mexer, agita a cauda, abre o bico e canta. Em volta do pescoço trazia uma fita, com a mensagem: "O rouxinol do Imperador da China nada vale comparado com o rouxinol do Imperador do Japão. "E no interior do Palácio todos os elogios se voltaram para o rouxinol dourado.
Toda a população soube do rouxinol mecânico  e mensagens chegaram para que ele se apresentasse em um concerto público. E, o pássaro de corda foi colocado para cantar sozinho. Agradou tanto como o verdadeiro rouxinol, e, alem disto era  bonito de  ver o seu brilho. O rouxinol  cantava a mesma canção muitas  vezes .Um dia  o Imperador achou que era a vez do verdadeiro rouxinol também cantar para todos.
E onde estava o verdadeiro rouxinol?   voou pela janela, para o jardim. Os cortesãos  levaram o rouxinol de corda  para cantar outra vez. E todos os elogios eram para o rouxinol mecânico: era superior ao rouxinol vivo, que foi deixado de lado.
O pássaro artificial recebeu um lugar especial numa almofada de seda junto à cama do Imperador. Tudo  continuou por um ano, até que o Imperador, a corte e o resto do povo chinês já sabiam de cor cada nota da canção do pássaro de corda.
Mas, uma noite quando o pássaro de corda estava cantando e o Imperador, deitado na cama o ouvia, algo  fez "croc!" dentro do pássaro.  O mecanismo continuou a rodar e a música parou. O Imperador  mandou chamar o seu médico, mas somente o relojoeiro conseguiu  consertar o pássaro mecânico. E todos sabiam  que o rouxinol deveria ser usado  poucas vezes; as peças estavam  gastas , e, não era possível substituí-las sem estragar o som
Os anos se passaram e uma tristeza abateu-se sobre o país. O Imperador adoeceu, e, diziam que ele estava mal. O Imperador jazia em seu leito, pálido e imóvel.  
Disse o Imperador :  — Música!  Quero música! Passarinho dourado, canta, peço  - lhe que cante! Dei-lhe ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato dourado em seu pescoço com as minhas próprias mãos. Canta, peço-lhe, canta! Mas o pássaro era silencio; não havia ninguém para lhe dar corda, e sem corda não tinha voz. E a Morte  olhava  para o Imperador.
Tudo era silêncio... Quando de  repente, diante da janela do quarto do Imperador, soou a mais bela canção. Era o verdadeiro rouxinol, que  empoleirado num ramo lá fora, e sabendo da doença do Imperador,  tinha voltado para aliviar o  seu sofrimento  e trazer-lhe esperança. À medida que cantava o imperador dizia cante, cante mais, pequeno  rouxinol.
— Cantarei, e o rouxinol  cantou sobre as roseiras, sobre as árvores, e o Imperador disse: como hei de recompensar- lhe.
E respondeu o rouxinol.  Quando cantei para você pela primeira vez caíram-lhe lágrimas dos olhos e essa dádiva não posso esquecer. Essas são as joias que não se compram nem se vendem. Mas agora deve dormir para ficar bom e forte, cantarei novamente para você. E cantou, cantou e o Imperador caiu num sono calmo e reparador.
— Há de ficar sempre comigo e  só cante quando quiser disse o Imperador. E, quanto ao pássaro de corda, irei partir em  pedaços.
— Não faça isso, falou o rouxinol. Guarde-o. Eu não posso morar no palácio, deixe-me ir e vir à vontade, e à noite ficarei neste ramo, junto de sua janela, e cantarei para você.  Hei de trazer-lhe felicidade, hei de cantar para as pessoas tristes e felizes s. Cantarei sobre o bem e o mal, que sempre estão à nossa volta . Amo o seu coração, e, sempre voltarei , mas deve me prometer uma coisa.
— O que quiser! — exclamou o Imperador.
- E o rouxinol  falou  : A única coisa que lhe peço  é  para não dizer a ninguém que tem um amigo passarinho que lhe conta tudo, e deve  guardar este segredo.  
Com estas palavras, o rouxinol voou para arvores, e, os criados chegaram para ver o Imperador ainda doente, mas...  ficaram  espantados ao ver o Imperador saudável e feliz!

Hans Christian Andersen – 1844

Adaptação: Regina C.Drumond

A Vitória-Régia - Uma lenda indígena

Bordado por: Umeko Marabayashi
umemaruba@yahoo.com.br
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer
baseado em CarcamO



Segundo a lenda indígena da Vitória-régia, tudo começou quando uma índia chamada Naiá descobriu que a lua transformava moças em estrelas.
A cultura indígena diz que a lua (guerreiro forte), ao se esconder por detrás das montanhas, levava para si as moças de sua preferência e as transformavam em estrelas.
Na esperança de virar uma estrela, a índia perseguia a lua, subindo e descendo as montanhas, nas proximidades de sua tribo, tupi-guarani. Mas a lua nada fazia com Naiá, nem a levava nem a transformava em estrela.

Em uma noite de lua cheia, ao ver a imagem da lua refletida sobre as águas de um riacho, a índia se atirou sobre a imagem, acreditando que o guerreiro a estava chamando. Com isso, se afogou e nunca mais foi vista por ninguém.
Em homenagem à índia, os integrantes de sua tribo passaram a acreditar que as flores que nasciam na Vitória-régia significavam o renascer de Naiá. Por isso, a planta é também conhecida como “estrela das águas”, em homenagem à índia. E suas flores, que são brancas, só se abrem à noite para serem iluminadas pela luz da lua.

Por Jussara de Barros
Pedagoga
Equipe Escola Kids


A Flauta Mágica: O Uirapuru - Uma lenda indígena

Bordado por: Valéria Pimenta
valeria.arteterapia@gmail.com
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer


Havia na tribo Tupi um jovem que tocava maravilhosamente flauta. Apelidaram-no até de Catuboré, que significa “a flauta mágica”. Não era bonito, nem tinha enorme charme, mas por causa dos sons melodiosos da sua flauta era cobiçado por todas as moças da tribo em idade de se casar. No entanto, somente a simpática Mainá conseguira conquistar seu coração.
Marcaram o casamento para a primavera, quando na mata florescem as quaresmeiras roxas e amarelas e os fedegosos se enchem de vermelho.
Mas aconteceu uma tragédia. Certo dia, Catuboré, saiu para a pesca num lago, distante da oca. Escureceu e ele não chegava. Mainá e suas amigas passaram a noite em claro, com o coração apertado de preocupação e de maus pressentimentos.
No dia seguinte, a tribo inteira se mobilizou, procurando-o por todos os caminhos. Finalmente, não muito distante do lago, encontraram o “flauta mágica” morto e enrijecido, ao pé de uma grande árvores. Logo entenderam: uma serpente venenosa lhe havia picado mortalmente a perna. Todos choraram copiosamente, de modo especial Mainá e as moças que tanto apreciavam os sons maviosos de sua flauta. Mas como estavam distantes da oca e quase todos estavam ali presentes, resolveram enterrar Catuboré ali mesmo, ao pé  da árvore que assistira sua morte.
Mainá, quando a saudade batia muito forte, vinha com suas amigas chorar sobre a sepultura do amado. Passaram-se várias semanas e as lágrimas não diminuíam. A alma de Catuboré, vendo a tristeza da amada, não conseguia ficar em paz. Chorava junto e lastimava seu infortúnio. Pediu, então, ao espírito da mata que o transformasse num pássaro, mesmo que fosse pequenino e feio, contanto que fosse cantador, capaz de consolar Mainá. E foi transformado, então, no uirapuru, que é parecido com Catuboré, pois não tem especial beleza, mas canta como ninguém na floresta, num som semelhante ao de sua flauta.
Hoje, tanto tempo depois, o uirapuru continua a cantar, embora apenas ocasionalmente, mas quando entoa seu canto belo e triste, todos os animais se sentem atraídos uns pelos outros, começam a namorar e a se beijar.  Os demais passarinhos que também cantam e gorjeiam respeitosos e atentos, se calam completamente. Só se escuta a voz do Uirapuru, consolando sua amada. Seu canto soa puro e delicado, como o de uma flauta e a Floresta Amazônica silencia em reverência  ao mestre dos pássaros. Índios e sertanejos se emocionam, porém poucos têm a oportunidade de ouvir o pequeno pássaro que canta apenas alguns minutos, ao alvorecer e ao anoitecer, durante os 15 dias do ano em que constróis seu ninho.
Ao som de seu canto, homens e mulheres apressam-se a fazer pedidos, confiantes de que serão prontamente atendidos. Muitos buscam suas penas, e até mesmo pedaços do ninho, aos quais atribuem poderes mágicos. Acreditam que uma de suas pensas dará aos homens sorte no amor e nos negócios. E um pedaço de seu ninho garantirá às mulheres a paixão e a fidelidade do amado para sempre.


http://www.youtube.com/watch?v=ZTzTNMgo0NU

Dragão Amarelo Trovão - Um conto chinês

Bordado por: Marie-Thérèse Pfyffer
mtpfyffer@uol.com.br
55 31 9133-9130
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer


Muito, muito tempo atrás, vivia na China o menino Chang.  Morava com seu pai, o fazendeiro Yin, e a sua avó, uma mulher velha e sábia que cuidava dele com amor porque a sua mãe tinha morrido ao lhe dar a luz. Era um menino quieto. Passava o dia sonhando, à espera de algo inesperado e maravilhoso mas nunca nada acontecia.  Até os seus treze anos.

Naquela tarde fazia um calor insuportável. Enquanto a avó dormia e Yin fazia algum trabalho em casa, Chang foi até o portão do jardim e ficou olhando para a planície que se estendia até o rio e para as montanhas ao longe. E viu chegar pela estrada um jovem cavaleiro de rara beleza vestido de amarelo e acompanhado de quatro criados. Um deles carregava um esplêndido guarda-sol amarelo para proteger o jovem do sol. Chang teve a impressão que os pés do cavalo e dos criados não tocavam o chão mas flutuavam entre céu e terra. O cavalo parecia um simples cavalo branco, mas uma bruma irisada cintilava ao seu redor como água tocada pelos raios do sol. Chang sentiu que algo extraordinário estava acontecendo. Os viajantes pararam no portão.

- Estou cansado, Chang, filho de Yin – disse  o jovem. – Posso me sentar no jardim de seu pai?

Chang curvou-se respeitosamente e o convidou a entrar. O cavaleiro desmontou com ligeireza e todos entraram no jardim. Ao ouvir as vozes, Yin veio saudar os visitantes e pediu ao filho que trouxesse alimentos.

Enquanto conversavam e se restauravam, Chang observava tudo. Como estes visitantes lhe pareciam surpreendentes! Suas roupas não aparentavam nenhuma costura, pareciam feitas de uma única peça de tecido. O cavalo não tinha pelos, estava coberto por pequenas escamas brancas e brilhosas, e em cada uma se podia ver cinco minúsculas manchas coloridas...

Finalmente o jovem estrangeiro agradeceu a hospitalidade e se despediu. Quando passaram pelo portão, o criado que segurava o guarda-sol o abaixou e só voltou a endireita-lo quando pisou na estrada.

- Voltarei amanhã – prometeu o cavaleiro ao subir no seu cavalo.
- Volte, nobre senhor – respondeu Chang inclinando-se.

Ele ficou olhando enquanto os visitantes tomavam o rumo das montanhas. De repente, eles saíram do chão, subiram pelos ares e desaparecerem nas nuvens cinzas anunciadoras de chuva. Então Chang voltou para dentro de casa.

- Estes visitantes eram estranhos – disse seu pai. – Não conhecia este jovem, mas ele sabia meu nome. Você notou algo diferente neles?
- Sim, pai. Seus pés não tocavam no chão quando caminhavam.
- Então não eram homens, mas espíritos. Precisamos falar com a Vovó sobre isto. Ela sabe das coisas sobrenaturais.

A anciã dormia profundamente e não mostrava nenhuma vontade de acordar. Espreguiçou-se e bocejou.

- Vovó! – disse Chang – Hoje recebemos visitas. Eram forasteiros e seus pés não tocavam no chão quando caminhavam.
- Conte-me tudo – disse a avó, subitamente desperta. E Chang contou tudo que viu.
- Roupas sem costura são roupas mágicas e o amarelo é uma cor sagrada. Sem nenhuma dúvida, este homem é Dragão Amarelo Trovão, sua montaria é Dragão Cavalo e seus criados são os Quatro Ventos. Haverá uma tempestade, mas se o criado abaixou o guarda-sol é um bom presságio – explicou a anciã e adormeceu de novo.

Em homenagem ao Dragão Amarelo Trovão, Chang vestiu um quimono amarelo, acendeu uma lanterna amarela, queimou incenso e leu fórmulas mágicas. Ao anoitecer, o céu se encheu de nuvens pretas. Yin e seu filho vigiavam pela janela, esperando a tempestade. Ouviram o trovão. Relâmpagos iluminaram o céu. Começou a cair uma chuva torrencial. Passaram as horas e ela não diminuía. Foi tanta água  que os rios transbordaram, invadiram os campos, arrastaram gente, animais, árvores, casas...

Ao amanhecer, Chang viu que a água do rio tinha chegado até o jardim. Olhou para o céu e lá, acima da casa, como para protegê-la, um dragão dourado pairava de asas abertas. E, num instante, tinha desaparecido.

- Pai! Vi Dragão Amarelo Trovão! E não está chovendo sobre a nossa casa!
- Ele está nos protegendo. Você fez bem em acolhê-lo ontem.

De tarde o sol voltou e Chang foi até o portão. Viu chegar o jovem estrangeiro no seu cavalo branco com seus quatro criados.

- Prometi voltar, mas hoje não entrarei no jardim.
- Como o senhor quiser – disse Chang e inclinou-se respeitosamente.
- Guarde isto com cuidado e faça bom uso.

O jovem pegou uma escama do pescoço do cavalo e a entregou a Chang. Com os seus criados, tomou o rumo do rio. Ficaram uns instantes caminhando acima das águas, entre céu e terra, e desapareceram nas ondas. Chang contou tudo ao seu pai e à sua avó.

- Quando o imperador os chamar, tudo estará bem – declarou a avó.

Yin e seu pai não entenderam o que isto queria dizer, mas a avó estava dormindo de novo e não explicou mais nada.

Nas semanas seguinte se espalhou a notícia de uma casa poupada pela chuva torrencial. Yin e Chang foram levados ao palácio e, na presença do imperador, Chang contou tudo o que tinha acontecido. Quando mostrou a escama, seu brilho intenso iluminou a sala do trono.

- Chang, filho de Yin, – disse o imperador – você vai ficar aqui ao meu lado. Te nomeio Mago Imperial porque Dragão Amarelo Trovão lhe entregou a escama que contém toda a magia do mundo.

E Chang foi morar no palácio com seu pai e a sua avó. Aprendeu a usar a escama para dar conselhos sábio ao imperador.

Mas isto ainda é outra história...

Adaptado de: “Dragon jaune tonnerre”
in “Contes magique du monde entier”. Margaret Mayo.

Gautier-Languereau, 1993.

Os Sete Sábios Cegos e o Elefante - Um conto hindu

Bordado por: Ilka Finotti Wutke
ilka@ilka.finotti.nom.br
watsApp: 34 9791-7787
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer



Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda. 
Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio. 
Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros: 
- Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí discutindo como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora. 
No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele. 
O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou: 
- Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes... 
- Que palermice! - disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. - Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra... 
- Ambos se enganam - retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. - Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia... 
- Vocês estão totalmente alucinados! - gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. - Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante... 
- Vejam só! - Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! - irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. - Este animal é como uma rocha com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele. 
E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança. 
Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou: 
- É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!



As Fadas - Charles Perrault

Bordado por: Ana Deister
alcdeister@gmail.com
55 31 3461-5595
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer


Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas. A mais velha se parecia tanto com ela, no humor e de rosto, que quem a via enxergava a própria mãe. Mãe e filha eram tão desagradáveis e orgulhosas que ninguém as suportava. A filha mais nova, que era o retrato do pai, pela doçura e pela educação, era ainda por cima a mais linda moça que já se viu. 
Como queremos bem, naturalmente, a quem se parece conosco, essa mãe era louca pela filha mais velha e tinha, ao mesmo tempo, uma tremenda antipatia pela mais nova que comia na cozinha e trabalhava sem parar como se fosse uma criada. Tinha a pobrezinha, entre outras coisas, de ir duas vezes por dia buscar água a meia légua de casa, com uma enorme moringa que voltava cheia e pesada. 
Um dia, nessa fonte, lhe apareceu uma pobre velhinha, pedindo água: 

- Pois não, boa senhora - disse a linda moça. 

E, enxaguando a moringa, tirou água da mais bela parte da fonte, dando-lhe de beber com as próprias mãos para auxiliá-la. A boa velhinha bebeu e disse: 

- Você é tão bonita, tão boa, tão educada que não posso deixar de lhe dar um dom. 

Na verdade, essa mulher era uma fada, que tinha tomado a forma de uma pobre camponesa para ver até onde ia á educação daquela jovem. 

- A cada palavra que falar - continuou a fada - de sua boca sairá uma flor ou uma pedra preciosa. 

Quando a linda moça chegou a casa, a mãe reclamou da demora. 

- Peço-lhe perdão, minha mãe - disse a pobrezinha - por ter demorado tanto. 

E, dizendo essas palavras, saíram-lhe da boca duas rosas, duas pérolas e dois enormes diamantes. 

- O que é isso? - disse a mãe espantada - acho que estou vendo pérolas e diamantes saindo da sua boca. De onde é que vem isso filha? Era a primeira vez que a chamava de filha. 

A pobre menina contou-lhe honestamente tudo o que tinha acontecido, não sem pôr para fora uma infinidade de diamantes. 

- Nossa! - disse a mãe - tenho de mandar minha filha até a fonte. 

- Filha, venha cá, venha ver o que está saindo da boca de sua irmã quando ela fala; quer ter o mesmo dom? Pois basta ir à fonte, e, quando uma pobre mulher lhe pedir água, atenda-a educadamente. 

- Só me faltava essa! - respondeu á mal-educada - Ter de ir até a fonte! 

- Estou mandando que você vá - retrucou a mãe - e já. 

Ela foi, mas reclamando. Levou o mais bonito jarro de prata da casa. Mal chegou à fonte, viu sair do bosque uma dama magnificamente vestida, que veio lhe pedir água. Era a mesma fada que tinha aparecido para a irmã, mas que surgia agora disfarçada de princesa, para ver até onde ia á educação daquela moça.

- Será que foi para lhe dar de beber que eu vim aqui? - disse a grosseira e orgulhosa. Se foi, tenho até um jarro de prata para a madame! Tome, beba no jarro, se quiser. 

- Você é muito mal-educada - disse a fada, sem ficar brava. 

- Pois muito bem! Já que é tão pouco cortês, seu dom será o de soltar pela boca, a cada palavra que disser, uma cobra ou um sapo. 

Quando a mãe a viu chegar, logo lhe disse: 

- E então, filha? 

- Então, mãe! - respondeu á mal-educada, soltando pela boca duas cobras e dois sapos. 

- Meu Deus! - gritou a mãe -, o que é isso? A culpa é da sua irmã, ela me paga. 

E imediatamente ela foi atrás da mais nova para espancá-la. A pobrezinha fugiu e foi se esconder na floresta mais próxima. O filho do rei, que estava voltando da caça, encontrou-a e, vendo como era linda, perguntou-lhe o que fazia ali tão sozinha e por que estava chorando. 

- Ai de mim, senhor, foi minha mãe que me expulsou de casa. 

O filho do rei, vendo sair de sua boca cinco ou seis pérolas e outros tantos diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse de onde vinha aquilo. Ela lhe contou toda a sua aventura. O filho do rei apaixonou-se por ela e considerando que tal dom valia mais do que qualquer dote, levou-a ao palácio do rei, seu pai, onde se casou com ela. Quanto à irmã, a mãe ficou tão irada contra ela que a expulsou de casa e a infeliz, depois de muito andar sem encontrar ninguém que a abrigasse, acabou morrendo num canto do bosque.


Charles Perrault

A Gralha Azul - Um conto brasileiro

Bordado por: Fátima Coelho
fatitocoelho@yahoo.com.br
55 31 3334-6884
Desenho: Fátima Coelho



A lenda é típica da região sul do Brasil. A gralha azul é a ave replantadora da araucária, um tipo de pinheiro, e tem a missão divina de ajudar na disseminação desta árvore. Durante o outono, os bandos de gralhas azuis pegam os pinhões, frutos das araucárias, e os estocam no solo ou em pedaços de árvores apodrecidos no chão. Neste processo, favorecem o nascimento de novas árvores.

De acordo com a lenda, há muito tempo, existiam apenas gralhas pardas. Mas um dia, uma gralha parda resolveu pedir para Deus uma missão que a tornasse útil e importante. Deus lhe deu um pinhão, que a gralha pegou com seu bico, com toda força e cuidado. Ela abriu o fruto e comeu a parte mais fina. A outra parte mais gordinha resolveu guardar para depois, enterrando-a no solo. Alguns dias depois, ela procurou no local onde havia enterrado o restante do pinhão mas não encontrou nada.
O tempo passou e, um dia, a gralha percebeu que onde havia enterrado o fruto, estava nascendo uma pequena araucária. Então, muito feliz, cuidou daquela árvore com todo amor e carinho. Quando o pinheiro cresceu e deu frutos, ela começou a comer uma parte dos pinhões e enterrar a parte mais gordinha que guardava a semente, dando origem a novas araucárias. Em pouco tempo, conseguiu cobrir grande parte do sul do pais com milhares de pinheiros, dando origem à floresta de Araucária. 

Quando Deus viu o trabalho da gralha azul, resolveu dar-lhe um prêmio: pintou suas penas da cor do céu, para que todos pudessem reconhecer naquele pássaro seu esforço e sua dedicação. Assim a gralha, que era parda, transformou-se em Gralha Azul.

A Quarta Viagem de Simba o Marujo - Um conto das Mil e Uma Noites

Bordado por: Rosângela Gualberto
rosangelagualberto@uol.com.br
Desenho: Marie-Thérèse Pfyffer



Quem nunca leu, pelo menos ouviu falar. Súmula de histórias milenares com registro em forma de escrita que remonta aos séculos XII e XVI – relatos árabes, persas ou sírios, fundidos com outros ainda mais antigos, de origem hindu –, As mil e uma noites é um tesouro do imaginário popular da humanidade, com suas aventuras de sultões, califas, princesas encantadas, tapetes voadores, marujos perdidos (como Simbad), ladrões com seus bandos (Ali Babá e os quarenta ladrões), histórias, enfim, para todos os tipos de leitores. Caberia a nós escolher uma dessas histórias. Optamos pelas andanças marítimas e em terra firme (firme, porém insegura) de Simbad, o marujo – ao encontro do desconhecido. (A grande aventura do homem é o desafio de entender o outro de cultura diferente da nossa?)
 Os muitos prazeres e divertimentos que por acaso gozei depois da minha terceira viagem não chegaram a ser atrativos suficientes para me impedir de viajar mais uma vez. Além disso, me deixei ainda levar pela paixão de vender mercadorias e de conhecer coisas novas. Dispus, pois, dos meus negócios, e, com um sortimento de fazendas consumidas nos lugares para onde tencionava ir, parti.
Tomei o caminho em direção à Pérsia, cujas províncias atravessei quase todas, e cheguei a um porto marítimo; de lá embarquei num navio. Sim, fizemo-nos à vela, e tínhamos já aproado em alguns portos da terra firme e em algumas ilhas orientais, quando um dia, depois de um longo trajeto, fomos acometidos de uma rajada de vento que obrigou o capitão a mandar amainar as velas e a dar todas as ordens necessárias para prevenir o perigo que nos ameaçava. Mas todas essas cautelas resultaram inúteis; não sendo a manobra bem-sucedida, as velas fizeram-se em mil pedaços, e, não podendo mais o navio ser governado, deu em seco e despedaçou-se de tal modo que muitos mercadores e marinheiros se afogaram – e perdeu-se toda a carga.
Tive, assim como outros mercadores e marujos, a felicidade de me agarrar a um pedaço de madeira. Fomos todos levados pela corrente a uma ilha perto de nós. Nessa ilha, encontramos frutas e fontes d’água que nos ajudaram a restabelecer nossas forças. Descansamos a noite toda no mesmo lugar onde o mar nos jogara, sem pensar a respeito do que deveríamos fazer. O abatimento a que nos reduzira a nossa desgraça não deixara lugar para tanto.
Logo ao nascer do sol do dia seguinte, afastamo-nos da praia; internando-nos na ilha, logo avistamos habitações aonde chegamos. Um grandíssimo número de negros veio ao nosso encontro; fomos cercados por eles, que nos aprisionaram e nos separaram numa espécie de partilha, levando-nos depois para suas casas.
Eu e cinco dos meus companheiros fomos conduzidos para o mesmo lugar. Foram logo nos mandando sentar, nos serviram uma erva qualquer e nos convidaram por gestos que comêssemos dela; e meus companheiros, sem perceber que eles não a comiam, só consultaram a fome que os apertava e serviram-se dela lautamente. Quanto a mim, pressentindo naquilo uma armadilha, como de fato o era, nem sequer a provei, no que fiz muito bem, pois, passado pouco tempo, percebi que meus companheiros estavam fora do seu juízo e que, falando comigo, não sabiam o que diziam.
Aqueles negros nos davam aquelas ervas para nos perturbar o espírito e nos tirar do cuidado que o triste conhecimento da nossa sorte nos devia causar e, para engordarmos, alimentavam-nos com arroz preparado com leite de coco, que meus companheiros, já com a razão alterada, comiam sofregamente. Eu também comia, com certeza, mas pouca quantidade. Sendo eles antropófagos, era sua intenção devorarnos quando estivéssemos bem mais gordos, o que acabou acontecendo aos meus companheiros, ignorantes de seu destino por terem o juízo prejudicado. Visto que eu conservava o meu juízo, bem concluís vós, senhores, que, em vez de engordar como os outros, eu emagrecia cada vez mais. Não me abandonava o receio da morte e transformava em veneno todos os alimentos que me ofereciam. Caí numa espécie de torpor que acabou me sendo útil, pois, tendo aqueles negros matado e comido  meus companheiros, contentaram-se com isso, e, vendo-me seco, descarnado e doente, foram adiando minha morte.
Eu, no entanto, tinha muita liberdade; eles praticamente não reparavam nas minhas ações. Graças a isso, um dia me afastei das habitações nativas – e escapei. Um velho que me viu e suspeitou de minha intenção gritou com todas as suas forças para que eu voltasse; mas, em vez de lhe obedecer, corri mais ainda, e bem depressa desapareci da sua visão. Não havia na aldeia senão aquele velho preto. Todos os outros haviam se ausentado e só deveriam retornar no fim do dia, como costumava acontecer; e foi por essa razão, certo de que não chegariam a tempo de vir atrás de mim quando soubessem de minha fuga, que caminhei até a noite chegar, quando parei para descansar um pouco e comer alguma coisa das provisões que trouxera comigo. Mas não demorei em seguir meu caminho, e durante sete dias andei fugindo dos lugares de que desconfiava ser habitados. Vivia à base de coco, que me dava ao mesmo tempo de comer e de beber.
No oitavo dia cheguei próximo do mar e avistei gente de pele branca como eu colhendo pimenta, em abundância ali. Averiguei bem a ocupação deles e fui me aproximando devagar.
Os homens que colhiam pimenta vieram ao meu encontro e foram logo me perguntando, em árabe, quem eu era, de onde eu vinha. Fiquei contente de ouvi-los falar como eu e de boa vontade satisfiz sua curiosidade, e contei a eles como fora o naufrágio e como chegara àquela ilha, onde caíra nas mãos dos homens pretos.
 – Mas esses pretos – disse um deles – comem carne humana. Qual milagre fez com que escapasses à sua crueldade?
Contei o que já ouviram antes e eles ficaram maravilhosamente pasmos.
Fiquei na colheita com eles até juntarem a quantidade de pimenta que quiseram, depois me embarcaram no navio que os trouxera, que rumou para a ilha de onde tinham vindo.
Lá apresentaram-me ao seu sultão, que parecia um bom príncipe e que teve a paciência de ouvir o relato da minha aventura, o que lhe causou admiração. Em seguida mandou que me dessem roupas e ordenou que tivessem atenção e cuidado comigo.
A ilha em que me encontrava era mui povoada e abundante em toda a sorte de coisas, e fazia-se um grande comércio na cidade onde o sultão residia. Esse agradável asilo consolou-me da minha desgraça, e as generosidades que aquele bondoso sultão tinha para comigo me deixaram muito contente. De fato, não havia pessoa alguma que tivesse mais cuidado que eu no seu espírito e, em consequência disso, não havia ninguém em sua corte nem na cidade que não procurasse oportunidade de me agradar.
E assim fui eu bem depressa considerado homem nascido na ilha e não estrangeiro.
Observei pelo menos uma coisa que julguei extraordinária: todos, e mesmo o sultão, montavam a cavalo sem freio e sem estribos. O que me deu a liberdade, um dia, de perguntar a eles por que sua majestade não se utilizava dessas comodidades. Respondeu-me ele que lhe falava de coisas cujo uso se ignorava nos seus estados.
Procurei a oficina de um carpinteiro e pedi que armasse o pau de uma sela sobre o modelo que lhe forneci. O pau da sela preparado guarneci-o eu mesmo de crina e couro e enfeitei-o com um bordado de ouro. Dirigi-me depois a um serralheiro para que executasse um freio segundo o modelo que lhe mostrei e pedi que fizesse estribos.
Tudo isso perfeitamente acabado, fui apresentá-lo ao sultão, e experimentei-o num de seus cavalos. O príncipe montou e ficou tão satisfeito com minha intenção que me manifestou a alegria que naquilo tinha, com grandes larguezas de espírito.
Não pude deixar de fazer várias selas para os cavalos dos seus ministros e principais oficiais do palácio, e todos eles me deram tantos presentes que me enriqueceram em pouco tempo. Fiz selas também para os cavalos das pessoas mais gradas da cidade, o que me granjeou, além de uma grande reputação, a consideração de todo mundo.
Como fazia a vontade ao sultão em tudo o que era possível, ele me disse um dia:
 – Simbad, eu te estimo muito, e sei que todos os meus vassalos que te conhecem te querem bem, a meu exemplo. Tenho um pedido a te fazer, e importa que me concedas o que te vou pedir.
 – Senhor – respondi-lhe eu –, não há coisa que não esteja pronto a fazer para mostrar a minha obediência a Vossa Majestade, que tem sobre mim um poder absoluto.
                – Minha vontade é casar-te – replicou o sultão – para que o casamento te detenha
nos meus estados e não te lembres mais da tua pátria.
Como não ousaria resistir à vontade do príncipe, deu-me ele por mulher uma senhora de sua corte, nobre e cordata, bela e rica. Realizadas as cerimônias de núpcias, estabeleci-me em casa da senhora, com a qual vivi algum tempo em perfeita união. No entanto, não estava muito contente com minha situação: era minha intenção escapar na primeira oportunidade e voltar para Bagdá, de cuja lembrança não me podia fazer esquecer o meu novo estado, por mais vantajoso que fosse.
Estava vivendo com essa intenção quando a mulher de um dos meus vizinhos, com o qual travara amizade mui estreita, caiu doente e morreu. Fui à sua casa para consolar o marido e achei-o envolto na mais viva aflição:
 – Deus vos guarde – disse-lhe eu, me aproximando – e vos dê uma longa vida.
 – Ai de mim – respondeu-me ele –, como quereis que alcance a graça que me desejais? Não tenho já senão uma hora de vida.
 – Ah!! – repliquei eu –, não deis entrada no vosso espírito a tão funesto pensamento. Espero que tal não aconteça e que eu tenha o gosto de gozar ainda de vossa companhia por muitos anos.
 – Desejo – respondeu ele – que seja longa a duração de vossa vida; quanto ao que me diz respeito, meus negócios estão concluídos e asseguro-vos que hoje mesmo me enterram com minha mulher; tal é o costume que estabeleceram os nossos antepassados nesta ilha, e que observam inviolavelmente; o marido vivo enterra-se com a mulher morta, e a mulher viva com o marido morto; nada pode valer-me, todos estão sujeitos à lei.
Enquanto contava essa estranha barbaridade, cuja notícia me assustara cruelmente, os parentes, amigos e vizinhos chegavam para participar dos funerais. Revestiram o cadáver com suas melhores vestes, como no dia de noivado, e enfeitaram-no com todas as suas joias. Colocaram-no depois num esquife descoberto e pôs-se o cortejo em marcha. À frente dos enlutados caminhava o marido, seguindo o corpo da mulher.
Pegaram a direção de uma alta montanha e, ali chegando, levantaram uma grande pedra que cobria a abertura de um poço profundo e nele desceram o cadáver, sem lhe tirar coisa alguma dos seus vestidos e joias. Feito isso, o marido abraçou seus parentes e amigos e deixou-se meter sem resistência num caixão com uma bilha d’água e sete pães; desceram-no então da mesma maneira que tinham descido a mulher. A montanha estendia-se ali diante de nós e servia o mar de limite – e o poço era profundíssimo.
Acabada a cerimônia, colocaram de novo a pedra sobre a abertura.
Não haveria precisão, meus senhores, de dizer-vos que fui testemunha tristíssima desse funeral. Todas as demais pessoas que a ele assistiram não me pareceram comovidas, pelo hábito de repetidas vezes ver a mesma coisa.
Não consegui evitar comentar com o sultão o que pensava a respeito daquilo:
 – Senhor – disse-lhe eu –, nada poderia me espantar mais do que o estranho  costume que se pratica entre vós, de enterrar os vivos e os mortos; viajei por muitas nações e jamais ouvi falar de uma lei tão cruel como essa.
 – O que é que tu querias, Simbad? – respondeu-me o sultão. – É uma lei comum a todos, e eu mesmo estou sujeito a ela. Serei enterrado vivo com a sultana minha esposa se ela morrer primeiro.
 – Mas, senhor – disse-lhe eu –, ouso perguntar a Vossa Majestade se os estrangeiros também são obrigados a seguir tal costume.
 – Sem dúvida – replicou o sultão, sorrindo com a minha pergunta. – Não estão isentos eles quando casados nesta ilha.
 Com essa resposta, voltei triste para casa. O receio de que morresse primeiro minha mulher, e de que me enterrassem vivo com ela, me dava motivos para reflexões bastante desconsoladoras. No entanto, que remédio dar a esse mal? Precisava ter paciência e reportar-me à vontade de Deus. Mas tremia à menor indisposição que notava em minha mulher; ai de mim! Tive logo o susto por inteiro: ela caiu doente e morreu em poucos dias.
Podeis imaginar qual não foi a minha aflição! Ser enterrado vivo não me parecia um fim menos deplorável que o de ser devorado por antropófagos. O sultão, acompanhado de toda a corte, quis honrar com sua presença o funeral, e as pessoas mais consideráveis da cidade me deram também a honra de assistir ao meu próprio enterro.
Quando estava tudo pronto para a cerimônia, depositaram o corpo da minha mulher num esquife, juntamente com todas as suas joias e seus melhores vestidos. O cortejo começou.
Como segundo ator dessa lamentável tragédia, seguia eu atrás do esquife, com os olhos banhados em lágrimas e chorando o meu próprio e desgraçado destino. Antes de chegar à montanha, quis testar o estado de espírito dos acompanhantes. Dirigi-me ao sultão, em primeiro lugar, e depois aos que se encontravam à roda de
mim; e, prostrando-me na sua presença para beijar a aba dos seus vestidos, supliquei-lhes que tivessem compaixão de mim.
 – Considerai – dizia eu – que eu sou estrangeiro, que não deveria estar sujeito a uma lei tão rigorosa, e que tenho outra mulher e filhos no meu país.
Por mais ênfase enternecida que desse a essas palavras, ninguém parecia se compadecer de mim; pelo contrário, se apressaram a descer o corpo de minha mulher ao poço, e, passados alguns instantes, desceram também o meu, noutro esquife descoberto, com um vaso d’água e sete pães. Por fim, acabada a cerimônia, colocaram a pedra na boca do poço, indiferentes às minhas excessivas aflições e aos meus lamentáveis gritos.
Com a pouca claridade que vinha de cima, e à proporção que me aproximava do fundo, descobria a disposição daquele lugar subterrâneo. Era uma vastíssima gruta e que bem podia ter cinquenta cúbitos de profundidade.
Senti logo um fedor insuportável que exalava de uma infinidade de cadáveres que eu ia vendo à direita e à esquerda. Pareceu-me escutar, das últimas pessoas descidas com vida, os últimos arrancos de sobrevida.
Chegando lá embaixo, no entanto, saí logo do esquife e afastei-me dos cadáveres, tapando o nariz. Joguei-me no chão e ali fiquei muito tempo, banhado em lágrimas e refletindo sobre meu triste destino:
“É verdade que Deus dispõe de nós segundo Sua Providência; desafortunado Simbad, não é tua a culpa de se ver reduzido a morrer de morte tão estranha?” Quisesse Deus que tivesses perecido em alguns dos naufrágios de que conseguiste escapar! Não terias de morrer de morte tão vagarosa e terrível, em todas as suas circunstâncias. Mas tu mesmo a procuraste por tua maldita avareza. Ah!, desgraçado! Não devias antes ter ficado em casa a gozar em paz o fruto de teu trabalho?”
Tais eram as inúteis lamentações com que fazia ressoar a gruta, batendo com raiva e desespero na cabeça e no estômago, e entregando-me por inteiro aos mais cruciantes pensamentos. Direi eu, no entanto, em vez de chamar a morte em meu socorro, por mais infeliz que me achasse, fez-se ainda sentir em mim o amor da vida que me induziu a prolongar meus dias.
Apesar da escuridão na gruta, tão densa que impossível de distinguir o dia da noite, fui apalpando em busca do meu esquife para pegar o pão e a água, e pus-me a comer e a beber, notando então que a gruta era espaçosa e mais plena de cadáveres do que a princípio me parecera.
Foi assim que sobrevivi durante uns dois dias; no entanto, tendo acabado pão e água, me preparei para morrer...
Pois só o que eu esperava era a morte quando ouvi levantarem a pedra no alto.
Um cadáver e uma pessoa viva foram jogados. O defunto era o homem. É natural tomar resoluções extremas em circunstâncias extremas. No momento em que desciam a mulher, fui para perto de onde seu esquife devia ser colocado e, ao perceber que tapavam a abertura do poço, bati na cabeça da desgraçada duas ou três fortes pancadas com um grande osso que encontrara ali à mão. Ela ficou atordoada, ou melhor, assassinei-a; e, como não fizera essa ação desumana senão para aproveitar-me do pão e da água que trazia no seu esquife, tive provisões para mais alguns dias.
E assim foi: quando as provisões estavam terminando, logo desceram uma mulher morta e um homem vivo, e matei o homem da mesma maneira. E por felicidade minha, parecia que acontecera uma epidemia qualquer na cidade: não tive falta de mantimentos, sempre usando a mesma artimanha.
No dia em que eu acabava de matar outra mulher, ouvi alguma coisa soprar e um vulto se locomover. Fui me aproximando de onde partia aquele barulho, e ouvi um sopro mais forte ainda, e me pareceu antever alguma coisa que fugia. Segui então aquela espécie de sombra que parava por vezes e soprava sempre, fugindo à medida que eu me aproximava. Andei muito tempo no encalço daquela sombra, e fui tão longe que avistei finalmente uma luz que parecia uma estrela. Segui a luz, perdendo-a de vista algumas vezes, de acordo com os obstáculos que a ocultavam de mim; mas tornava a achá-la, e por fim descobri uma abertura no rochedo, suficientemente larga para que eu pudesse passar por ela.
Grande descoberta a minha, e parei por um tempo para me refazer da violenta excitação e decorrente do cansaço do muito que caminhei; e me aproximando até aquela abertura, por ela passei e eis-me em plena beira-mar.
Quanta alegria, senhores! Podeis imaginar? Tais foram as dificuldades que tive certo trabalho para me convencer de que não era aquilo tudo sonho nem imaginação.
Convencido de que era tudo real, restituídos os meus sentidos, que voltaram ao estado normal, percebi que a coisa que eu ouvira soprar e que era vulto e sombra, que eu seguia, era um animal saído do mar, que costumava entrar na gruta para alimentar-se dos corpos mortos.
Olhei e examinei a montanha e concluí que ela estava assentada entre a cidade e o mar, sem ligação alguma por caminho ou trilha; porque era de tal forma encarpada que a natureza a tornara inacessível por terra.
Deitei-me na praia, prostrado, e agradecia a Deus a graça que acabara de me conceder.
Logo voltei à gruta para buscar pão, que comi em plena claridade do dia, com vontade melhor do que quando enterrado num lugar tenebroso.
Voltei outra vez para, apalpando aqui e ali nos esquifes, apanhar todos os diamantes, rubis, pérolas, braceletes de ouro, enfim, todos os ricos estojos que encontrava à  mão – e carreguei tudo para a beira-mar. Fiz vários pacotes e amarrei-os com as cordas que serviram para descer os esquifes, e que eram muitas. Coloquei-os na praia, à espera de uma boa oportunidade, sem temer que a chuva lhes fizesse algum dano, pois não era então a estação das chuvas.
Depois de dois ou três dias avistei um navio que acabara de sair do porto e que  passava perto de onde eu estava.
Acenei com o pano do meu turbante e gritei com todo o ar dos meus pulmões, até que consegui que me ouvissem e então mandaram-me eles uma chalupa para me embarcar.
À pergunta que os marujos me fizeram, por que desgraça da sorte me achava eu naquele local, respondi que escapara de um naufrágio há dois dias, com os embrulhos que viam; e tal foi minha fortuna que, sem examinarem o lugar onde eu estava  nem se o que eu lhes dizia era verdade, contentaram-se com minha resposta e me levaram com eles, eu e meus pacotes.
Assim que cheguei a bordo, o capitão, satisfeito do favor que me fazia, e ocupado com o comando do navio, teve também a bondade de acreditar no meu pretenso naufrágio. Ofereci-lhe algumas das minhas joias, mas ele não quis aceitá-las.
Mar adentro, passamos por várias ilhas, entre outras passamos perto da ilha dos Sinos, afastada dez dias da ilha de Serendib, com o vento ordinário e regulado, e seis da ilha de Kela, onde ancoramos. Há nessa ilha minas de chumbo, canas da Índia e mui excelente alcanfor.
O sultão da ilha de Kela é riquíssimo e poderosíssimo; sua autoridade estende-se também sobre a ilha dos Sinos, a duas jornadas de distância, e cujos habitantes são ainda tão bárbaros que comem carne humana. Depois de fazer muito comércio nessa ilha, tornamo-nos ao mar e aportamos em outras localidades.

Por fim, cheguei felizmente a Bagdá, com infinitas riquezas, cuja lista seria inútil fazer-vos. Posso dar graças a Deus pelos favores que Ele me concedeu; dei grandes esmolas, não só para a conservação de algumas mesquitas, como para a subsistência dos pobres; e dei-me inteiramente a meus parentes e amigos, divertindo-me e levando uma boa vida com eles.