terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A MULHER QUE VIROU BEIJA-FLOR

Bordado por: Valéria Pimenta

Coaciaba era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi. Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os mais diferentes passarinhos e insetos.
De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença ou por velhice. Morre-se também por saudade da pessoa amada.
Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la para passear. Mesmo pequena só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse sua mãe.
De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia a dia até que morreu também. Os parentes ficaram muito penalizados com tanta desgraça, sobrevindo sobre a mesma família.
Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como o dos demais índios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim, podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.
A mãe Coaciaba, cujo espírito fora transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor, sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.
Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás, ao sugar o néctar, ouviu o chorinho triste. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro da flor a vozinha da filha querida, Guanambi. Como poderia estar aprisionada ali? Refez-se de emoção e disse:
- Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranqüila que vou libertá-la para juntas voarmos ao céu.
Mas deu-se logo conta de que era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida.
Recolheu-se, então, a um canto, em lágrimas, suplicou ao espírito criador e todos os ancestrais da tribo:
- Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa dos irmãos e das irmãs, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração de uma flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e vós todos, anciãos da nossa tribo: transformem-me num passarinho veloz e ágil, dotado de um bico pontiagudo, para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.
Tanto foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criado e aos anciãos da tribo atenderam sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou, com voz carregada de enternecimento:
- Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.
Com o bico pontiagudo, foi tirando com sumo cuidado, pétala por pétala, até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe. Purificadas, voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.
Desde então entre indígenas amazônicos introduziu-se o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilases, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe na forma de um beija-flor virá buscá-la para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes.


(BOFF, 2001, p.106-108).

AS DOZE PRINCESAS E OS SAPATINHOS DE BAILE

Bordado por: Marie-Thérèse Pfyffer

Era uma vez um rei que tinha doze filhas muito lindas. Dormiam em doze camas, todas no mesmo quarto e, quando iam para a cama, as portas eram trancadas. Todas as manhãs, porém, os seus sapatos tinham as solas gastas, como se tivessem dançado com eles toda a noite, mas ninguém descobria como isso tinha acontecido.
Então, o rei fez saber por todo o país, que se alguém pudesse descobrir onde é que as princesas iam dançar à noite, ele casaria com aquela de quem mais gostasse e seria rei, depois dele morrer. Mas quem tentasse descobrir, e ao fim de três dias e três noites não conseguisse, seria morto.
Apresentou-se logo o filho de um rei. Foi muito bem recebido e à noite levaram-no para o quarto ao lado daquele onde dormiam as princesas. Para que nada se passasse sem ele ouvir, deixaram-lhe a porta do quarto aberta. Mas o rapaz em pouco tempo adormeceu e, quando acordou de manhã, viu que as princesas tinham dançado de noite, porque as solas dos sapatos delas estavam cheias de furos. O mesmo aconteceu nas duas noites seguintes e o rei ordenou que lhe cortassem a cabeça. Depois dele vieram muitos outros, mas nenhum deles teve melhor sorte, e todos perderam a vida da mesma maneira.
Aconteceu que um pobre soldado atravessava o país onde esse rei reinava. Na floresta encontrou uma velha, que lhe perguntou para onde ele ia.
- Não sei bem, mas até queria descobrir onde é que as princesas dançam, e assim vir a ser rei.
- Bem, isso não custa muito. Basta que tenha cuidado, e não beba nada do vinho que uma das princesas lhe trará à noite. E deve fingir que está pegando no sono.
A seguir a velha deu-lhe uma capa, e disse:
- Logo que vestir essa capa, você se tornará invisível, aí poderá seguir as princesas para onde quer que elas forem.
O soldado ouviu esses bons conselhos e foi se apresentar diante do rei, que deu ordem para que lhe fossem dadas ricas vestes para ele trajar. Quando veio a noite, conduziram-no até o quarto perto do das princesas.
Na hora de deitar-se, a mais velha das princesas trouxe-lhe uma taça de vinho, mas o soldado a entornou sem que ela percebesse. Depois estendeu-se na cama e começou a roncar como se estivesse pegado no sono.
Quando as princesas o ouviram, puseram-se a rir, levantaram-se, abriram as malas e vestiram os ricos trajes que de lá tiraram. Arrumaram-se saltitando de tão contentes, mas a mais nova estava preocupada:
- Não me sinto bem. Tenho certeza de que vai suceder alguma desgraça.
- Tola, - disse a mais velha -. Já não lembra quantos filhos de reis vieram espiar em vão?
Quando ficaram prontas, foram olhar o soldado, mas ele continuava a roncar e elas julgaram-se seguras. A mais velha foi até a sua cama e bateu palmas. Devagar a cama afundou no chão, abrindo-se um grande alçapão. O soldado viu-as descendo uma a uma a escada, levantou-se em silêncio, colocou a capa invisível e seguiu-as. Mas pisou na cauda do vestido da mais nova, que gritou para as irmãs:
- Alguém me puxou o vestido!
- Que tola! - disse a mais velha- foi um prego que deve estar na madeira!
Lá foram todas descendo e, quando chegaram ao fim, encontravam-se num bosque de lindas árvores com folhas de prata. O soldado levou um raminho.
Ouvindo o estalo do galinho ao quebrar, a princesa mais nova gritou de novo de medo. Mas as irmãs riram:
- São os nossos príncipes soltando fogos para nos receberem.
Passaram depois por um bosque onde as folhas das árvores eram de ouro e finalmente por um terceiro onde tinham folhas de diamantes. O soldado ainda pegou um raminho de cada.
Chegaram finalmente a um grande lago, e, à margem, estavam encostados doze barcos, tendo dentro doze príncipes lindos, que esperavam pelas princesas. Cada uma entrou em um barco, e o soldado saltou para o barco onde ia a mais nova. O príncipe que remava disse:
- Não sei o que é, mas, apesar de estar remando com muita força, parece que vamos mais devagar que de costume, o barco hoje está muito pesado.
Do outro lado do lago estava um grande castelo, todo iluminado, de onde vinha um som de música. Desembarcaram todos, e entraram. Cada príncipe dançou com sua princesa, e o soldado invisível, dançou entre eles. Quando punham uma taça de vinho perto de uma princesa, ele bebia-a toda e ela levava à boca uma taça vazia. A irmã mais nova estava assustada, mas a mais velha fazia-a calar.
Dançaram até as três da manhã, e então tiveram que parar porque os seus sapatos estavam gastos. Os príncipes levaram-nas outra vez para o outro lado do lago, mas desta vez o soldado entrou no barco da princesa mais velha, e na margem oposta todos despediram-se combinando voltar na noite seguinte.
Quando chegaram ao pé da escada, o soldado adiantou-se e subiu primeiro, indo logo deitar-se e fingindo dormir.
As princesas ouviram-no roncar e disseram :
- Está tudo bem.
Despiram e guardaram nas malas seus trajes, tiraram os sapatos e deitaram-se.
De manhã o soldado não disse nada do que tinha visto, mas decidiu tornar a ver esta aventura. Seguiu as princesas nas outras duas noites. Na terceira noite o soldado teve o cuidado de levar consigo uma taça de ouro como prova.
Chegada a manhã, o soldado, foi levado à presença do rei. As princesas esconderam-se atrás da porta para ouvir o que ele diria. E quando o rei perguntou:
- Onde é que as minhas doze filhas dançam toda noite?
O soldado respondeu:
- Com doze príncipes num castelo debaixo da terra.
Contou ao rei tudo o que tinha sucedido e mostrou-lhe os três ramos e a taça de ouro que trouxera consigo.
O rei chamou as doze princesas e perguntou-lhes se era verdade. Vendo que o seu segredo tinha sido descoberto, elas confessaram tudo.
O rei perguntou ao soldado qual delas ele queria como esposa, ele respondeu:


- Já não sou muito novo, por isso, escolho a mais velha.
Casaram-se e o soldado ficou sendo o herdeiro do trono.

IARA, A MÃE D' ÁGUA

Bordado por: Ilka Finotti Wutke

(Lenda Indígena)

Diz a lenda que antes de se tornar uma sereia, Iara era uma belíssima índia trabalhadora e corajosa. Iara se destacava entre os demais, por ser a melhor e consequentemente despertava a inveja de alguns da tribo, especialmente a de seus irmãos homens, que não se conformavam com tal situação. Seu pai era pajé e a admirava em tudo o que fazia contribuindo ainda mais para a revolta de seus irmãos. Tomados pela inveja e pelo ciúme, os irmãos de Iara decidiram matá-la.
Certa noite, quando Iara repousava em sua cama, ouviu seus irmãos entrando em sua cabana com a intenção de matá-la. Rápida e guerreira, se defendeu e acabou os matando. Percebendo a gravidade da situação e com medo da atitude de seu pai, Iara fugiu desesperadamente pelas matas. O pai de Iara realizou uma busca implacável pela filha. Localizaram-na, e como punição pelo seu ato, foi jogada no encontro do rio Negro com Solimões. Os peixes trouxeram o corpo de Iara à superfície que sob o reflexo da lua cheia transformou-se em uma linda sereia com cabelos longos e olhos verdes.
Desde então Iara permanece nas águas atraindo os homens de maneira irresistível e os matando. Acredita-se que em cada fase da lua, Iara aparece com escamas diferentes e adora deitar-se sobre bancos de areia nos rios para brincar com os peixes. Também de acordo com a lenda, é vista penteando seus longos cabelos com um pente de ouro, mirando-se no espelho das águas.


A lenda da Iara é conhecida em várias regiões brasileiras e existem diversos relatos de pescadores que contam histórias de jovens que cederam aos encantos da tentadora sereia e morreram afogados de paixão.

RUMPELSTILTSKIN

Bordado por: Ana Deister

Era uma vez um moleiro que tinha uma filha muito bela. Um dia, o príncipe do lugar passou pela casa do moleiro, e vendo a menina, elogiou-lhe a beleza. O pai, entusiasmado, resolveu gabar-lhe as qualidades, e disse que ela, além de bela, era capaz de fiar palha e transformá-la em ouro. Como o príncipe era muito ganancioso, na mesma hora ordenou aos seus guardas que a levassem para o castelo. Lá, ele a prendeu numa torre cheia de palha, e deu-lhe um dia para que a transformasse todinha em ouro, senão, seria enforcada. Deixada a sós, ela começou a chorar. Então, apareceu diante dela um anãozinho muito esquisito e feioso:
- Por que choras, linda menina?
- Porque preciso transformar toda esta palha em ouro, ou serei enforcada.
- E o que me darás se fizer este serviço para você?
A moça tirou o colar que tinha sido herança da mãe, e entregou-o ao anão. Ele num instante sentou-se à beira da roca, e fiou toda a palha em ouro.
O príncipe ficou felicíssimo quando viu aquele monte de ouro. Então, transferiu a moça para um cômodo ainda maior, com mais palha ainda, e ordenou que ela a transformasse em ouro, senão, seria enforcada. Tudo se passou como na noite anterior. O anãozinho veio, recebeu o único anel que era lembrança da avó da moça, e fiou toda a palha em ouro. Ainda mais entusiasmado com o feito, o príncipe colocou a moça num cômodo ainda maior, e prometeu que se ela fiasse toda a palha que estava lá em ouro, ele se casaria com ela. Naquela noite, o anãozinho apareceu de novo ante as lágrimas desesperadas da moça. Como ela já não tinha mais nada a oferecer em troca dos seus serviços, fê-la prometer que lhe daria o primeiro filho depois de casada com o príncipe. Ela prometeu, porque tinha pavor de morrer enforcada. O anãozinho passou a noite toda fiando aquele monte de palha em ouro.
O príncipe cumpriu a promessa e se casou com a moça. Quando ela teve o primeiro filho, o anãozinho apareceu para cobrar a dívida. Ela chorou, implorou, arrancou os cabelos, mas nada demovia a criatura da sua decisão de levar consigo o menino. Por fim, ele concordou em deixar o menino com ela, se ela conseguisse descobrir seu nome em três dias. A moça fez uma lista interminável de nomes, e recitou-os no primeiro, depois no segundo dia, e nenhum deles, nem os mais estapafúrdios correspondiam ao do anão. Ele já se rejubilava, certo de que a criança seria dele. A moça então pediu para sua criada sair pelo reino afora anotando todos os nomes estranhos que encontrasse. Quando a criada voltou, disse não ter nenhuma novidade, mas contou que, quando passava pela floresta, tinha encontrado uma estranha criatura, como um duende, dançando em volta de uma fogueira e cantando uma estranha canção:
“ha há ha ha há
Ninguém nunca vai saber
passe frio ou passe fome
Rumpelstiltskin é meu nome!”
A moça não cabia em si de contente, porque tinha certeza de que a criada tinha encontrado o anãozinho que a estava chantageando.
No último dia, ele chegou certo de que levaria consigo a criança. A moça, para disfarçar, falou muitos nomes antes de chegar ao tal Rumpelstiltskin. Quando ela pronunciou o nome, o anãozinho ficou furioso. Rodava e gritava : “Foi o diabo que te contou! Foi o diabo que te contou!”, e rodopiava e batia o pé no chão com tanta raiva e tanta força, que acabou por fazer um buraco onde caiu e nunca mais se ouviu falar dele.

“Entrou por uma porta e saiu por um canivete
 e quem quiser que conte mais sete”

(recontado por Ana Deister)

FÁTIMA , A FIANDEIRA

Bordado por: Fátima Coelho 

Numa cidade do mais longínquo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero fiandeiro. Um dia seu pai lhe disse:
- Filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa então se casar.
Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido. Mas um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Fátima, semi-consciente, foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.
Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida.
Enquanto vagava pela praia uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa  e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima iniciou nova vida e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz reconciliada com sua sorte. Porém um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.
Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e venderam-na como escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruíra.
Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento de Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida melhor do que teria nas mãos de outro comprador.
Ele levou Fátima para casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa.
Mas ao chegar a sua casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.
Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão. Um dia ele lhe disse:
- Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.
Ela então partiu. Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima estava como náufraga em uma praia de um país desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa acontecia e destruía suas esperanças.
- Por que será – perguntou pela terceira vez - que sempre que tento fazer alguma coisa não dá certo? Por que devo passar por tantas desgraças?
Como não obteve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia. Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.
Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte.
Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete e explicaram-lhe que devia ir à presença do imperador.
- Senhora – disse o imperador quando Fátima foi levada até ele, - sabe fabricar uma tenda?
- Acho que sim, Majestade – respondeu a jovem.
Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.
Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe, e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.
Através dessas aventuras Fátima compreendeu que o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável acabou sendo parte essencial para a sua felicidade.

Contado por Olga Akemi

O CASAMENTO DE NARIZINHO COM O PRÍNCIPE ESCAMADO NO REINO DAS ÁGUAS CLARAS

Bordado por: Rosângela Gualberto 


Rodeado de toda a corte e de enorme multidão de povo do mar, veio o Príncipe do Reino das Águas Claras receber Narizinho. Assim que ela apeou do coche, todos bateram palmas, deram vivas e soltaram peixes fosforescentes, que eram os foguetes lá deles. O Príncipe abraçou a sua noiva, nada podendo dizer de tanta comoção que sentia.

Narizinho e Emília foram escolher figurinos em casa de Dona Aranha Costureira. Depois passaram a escolher fazendas. Dona Aranha tirou dos seus armários de madrepérola um vestido cor do mar com todos os seus peixinhos; e com o maior pouco-caso, como se fosse de alguma casinha barata, desdobrou-o diante das freguesas assombradas.
- Que maravilha das maravilhas! – exclamou Narizinho, de olhos arregalados, sentindo uma tontura tão forte que teve de sentar para não cair.
Era um vestido que não lembrava nenhum outro. Feito de seda? Qual seda nada! Feito de cor – e cor do mar! Em vez de enfeites conhecidos era enfeitado com peixinhos do mar. De todos os peixinhos – os vermelhos, os azuis, os dourados, os de escama furta-cor, os compridinhos, os roliços como bolas, os achatados, os de cauda bicudinha, os de olhos que parecem pedras preciosas, os de longos fios de barba movediços – todos, todos!... Foi ali que narizinho viu como eram infinitamente variadas a forma e a cor dos habitantes do mar. Alguns davam ideia de verdadeiras joias vivas, como se feitos por um ourives que não tivesse o menor dó de gastar os mais ricos diamantes e opalas e rubis e esmeraldas e pérolas e turmalinas da sua coleção. E esses peixinhos-joias não estavam pregados no tecido, como os enfeites e aplicações que se usam na terra. Estavam vivinhos, nadando na cor do mar como se nadassem n’água. De modo que o vestido variava sempre e variava tão lindo, lindo, lindo, que a tontura da menina apertou e ela pôs-se a chorar.
- É a vertigem da beleza! – exclamou Dona Aranha sorridente.
- Mas quem é que fabrica esta fazenda, Dona Aranha? – perguntou Emília, apalpando o tecido.
- Este tecido é feito pela fada Miragem – respondeu a costureira.
- E como a senhora o corta?
- Com a tesoura da imaginação.
- E com que agulha o cose?
- Com a agulha da Fantasia.
- E com que linha?
- Com a linha do Sonho.

Pedrinho, ansioso por saber o que estava se passando, trepou a uma das janelas para espiar dentro do palácio. E viu tudo. Viu Narizinho deslumbrante no seu vestido cor do mar com todos os seus peixinhos. Na cabeça trazia um diadema feito das mais raras pérolas dos sete mares, e na mão um cetro de nácar todo esculpido. Ao lado dela caminhava o Príncipe no seu maravilhoso manto de rei, feito das mais raras escamas. Atrás vinha Emília, de vestido de cauda, braço dado a um soleníssimo Bernardo-Eremita. Este senhor trazia nas mãos uma salva de escamas onde repousava a coroa com que o Príncipe ia ser coroado.
Chegados aos primeiros degraus do trono, os reais noivos principiaram a subir passo a passo, ao som das mais belas músicas que se possam imaginar. Eram cantos de sereias vindas de todos os pontos do oceano. Enquanto caminhavam, uma chuva de pérolas em pó caía sobre eles. Subiram ao trono. Sentaram-se. O venerando Bernardo-Eremita pronunciou as palavras sacramentais e os casou bem casadinhos.

Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Está pronto o Calendário 2014!!!

Ateliê de Arte Terapia Caminho dos Sonhos apresenta:

Vivendo Sonhos Bordados - Calendário 2014!



Contos que estão no Calendário 2014:
  • A Pastora e o Limpador de Chaminés - Zélia Melo - melozelia@terra.com.br
  • A Princesa Serpente - Neuza Oli Veira - nemabh25@yahoo.com.br
  • A Árvore da vida e da Morte - Vani Luiza Cipriano - vanicipriano@gamail.com
  • Os Músicos de Bremen - Selma Fabrini - amlesfab@gamil.com
  • Os Cisnes Selvagens - Regina C. Drumond - reryreine@gmail.com
  • Mandi, A lenda da Mandioca - Umeko Marubayashi - umemaruba@yahoo.com.br
  • A Mulher que virou Beija-Flor - Valéria pimenta - valeria.arteterapia@gmail.com
  • As Doze Princesas e os Sapatinhos de Baile - Marie-Thérèse Pfyffer - mtpfyffer@gmail.com
  • Iara, a Mãe d´Água - Ilka Finotti - ilka@ilka.finotti.nom.br
  • Rumpelstiltskin - Ana Deister - alcdeister@gmail.com
  • Fátima a Fiandeira - Fátima Coelho - fatitocoelho@yahoo.com.br
  • O Casamento de Narizinho com o Príncipe Escamado no Reino das Águas Claras - Rosângela Gualberto - rosangelagualberto@uol.com.br

Valor: R$30,00 cada
Tamanho: 30 X 30 cm
Impressão: Papel Couché 

Peça logo o seu! Edição limitada!
Ilka Finotti - ilka@ilka.finotti.nom.br

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Contos do Calendário 2013 - A Bela e a Fera - Janeiro


Para aqueles que gostam de uma boa estorinha, segue uma versão resumida dos contos que bordamos no nosso Calendário 2013:


A Bela e a Fera
conto francês
Há muitos anos, em uma terra distante, viviam um mercador e suas três filhas . A mais jovem era a mais linda e carinhosa, por isso era chamada de Bela.
Um dia o pai teve que viajar para longe a negócios. Reuniu as suas filhas e disse:
— Não ficarei fora por muito tempo. Quando voltar trarei presentes para todas. O que vocês querem?
As irmãs de Bela pediram coisas caras, enquanto ela permanecia quieta. O pai se voltou para ela, dizendo :
— E você, Bela, o que quer ganhar?
— Quero uma rosa, querido pai, porque neste país elas não crescem, - respondeu Bela, abraçando-o forte.
O homem partiu, conclui os seus negócios e pôs-se na estrada para a volta. Tanta era a vontade de abraçar as filhas que viajou sem parar. Mas, no meio de uma mata, foi surpreendido por uma furiosa tempestade, que lhe fez perder o caminho. Desesperado, começou a vagar em busca de uma pousada quando, de repente, avistou uma luz. Com as forças que lhe restavam dirigiu-se para lá e chegou a um magnífico palácio, o qual tinha o portão aberto e parecia convidá-lo a entrar. Descobriu um interior suntuoso, ricamente iluminado e mobiliado. O mercador ficou defronte da lareira para enxugar-se e percebeu que havia uma mesa posta para uma pessoa. Extenuado, sentou-se e esperou. Como ninguém chegava, ele se alimentou. A comida estava quente e saborosa, e o vinho delicioso. Num quarto vizinho descobriu uma cama acolhedora, onde se esticou, adormecendo logo. Ao acordar de manhã, encontrou vestimentas limpas e uma refeição farta. Descansado e satisfeito, o pai de Bela saiu do palácio, perguntando-se por que não havia encontrado ninguém. Perto do portão viu uma roseira com lindíssimas flores e, lembrando-se da promessa feita a Bela, parou e colheu a mais perfumada. Ouviu, de repente, um rugido pavoroso e viu um ser monstruoso que lhe disse:
— É assim que paga a minha hospitalidade, roubando as minhas rosas? Para castigar você, sou obrigado a matá-lo!
O mercador jogou-se de joelhos, suplicando-lhe para ao menos deixá-lo ir abraçar as filhas uma última vez. A Fera lhe fez então a seguinte proposta: emprestava-lhe um cavalo e, dentro de uma semana devia voltar, ou uma de suas filhas em seu lugar. O homem foi obrigado a aceitar. Chegando em casa, apavorado e infeliz, contou tudo para as filhas. Bela disse:
— Foi por minha causa que o senhor provocou a ira do monstro. É justo que eu vá...
De nada valeram os protestos do pai, Bela estava decidida. Passados os sete dias, partiu para o misterioso destino. Chegada à morada do monstro, encontrou tudo como lhe havia descrito o pai. Pôs-se então a visitar o palácio, onde não viu alma viva. Mas qual não foi a sua surpresa, quando leu numa belíssima porta a inscrição em letras douradas "Apartamento de Bela". Entrou e se encontrou em uma luminosa e esplêndida ala do palácio. Das janelas tinha uma encantadora vista do jardim. De noite a Fera apareceu e lhe disse com jeito gentil e suplicante:
— Sei que tenho um aspecto horrível e peço desculpas; mas não sou mau e espero que a minha companhia, um dia, possa lhe ser agradável. Por enquanto, queria que me honrasse com sua presença no jantar.
Um pouco menos temerosa, Bela compreendeu que a Fera não era tão malvada e consentiu. Depois do jantar, a Fera a pediu em casamento. Apavorada, ela recusou e fugiu para o seu quarto.
Passaram-se muitas semanas. Todas as noites jantavam juntos e a Fera fazia o mesmo pedido.  Bela sempre recusava, mas sentia cada dia mais afeição por aquele estranho ser, que sabia revelar-se muito gentil, culto e educado.
Uma noite, a Fera viu que Bela estava preocupada. Quando lhe perguntou por quê, ela disse estar com muita saudade do pai e com vontade de ir para casa. A Fera pensou um pouco, mas tanto era o amor que tinha por ela que, ao final, deixou-a ir, fazendo-a prometer que voltaria após sete dias. Quando o pai viu Bela, não acreditou nos próprios olhos, pois a imaginava já devorada pelo monstro. Cobriu-a de beijos e ela contou tudo sobre a sua vida com a Fera. As irmãs sentiram muito ciúme e impediram Bela de voltar no dia marcado.
Quando ela finalmente chegou ao palácio, procurou ansiosa pela Fera. Finalmente a encontrou, deitada perto da roseira. Estava morrendo. Então Bela a abraçou forte, chorando, e suplicou:
— Oh! não morra! Acreditava sentir por você apenas uma grande estima, mas sofro tanto que sei que amo você.
Ao ouvir estas palavras a Fera abriu os olhos e deu um sorriso radioso. Com grande espanto, Bela a viu transformar-se em um lindo jovem, o qual a olhou comovido e disse:
— Um malvado encantamento me havia preso naquele corpo monstruoso. Podia vencê-lo somente fazendo uma moça apaixonar-se e você é a escolhida. Quer casar comigo agora?
Bela não o fez repetir o pedido e a partir de então viveram felizes e apaixonados.

Sherazade e Shariar - Fevereiro


Sherazade e Shariar

conto das Mil e Uma Noites





É a história magnífica do rei Shariar da Pérsia desencantado com as mulheres e da sabedoria e perspicácia de Sherazade, filha do Vizir, que encantou ao rei e depois o mundo com suas histórias entrelaçadas, que salvou não só sua própria vida como a daquele rei entristecido que a cada manhã mandava matar a esposa.
Em sua primeira noite Sherazade faz um único pedido ao Rei – a presença de sua irmã Dinazade nas dependências nupciais. Havia combinado com ela que após a consumação do casamento ela pedisse histórias, como uma despedida. E assim ela contou a sua primeira história.
O mercador e o gênio -  Era uma vez... um mercador, dono de muitas riquezas. Certo dia saiu de sua casa a cavalo e partiu em viagem de negócios. O calor era muito forte. Resolveu apear e sentou-se sob uma árvore. Abriu seu alforje e tirou de lá suculentas tâmaras. Comeu algumas e atirou longe seus caroços. De repente, surgiu diante dele um ifrit de grande altura (ifrits são gênios conhecidos por seu péssimo humor), que gritou sacudindo uma espada:
- Levanta para que eu o mate, como matou meu filho!
O comerciante, espantadíssimo, respondeu:
- Como pude matar seu filho?
- Depois que comeu as tâmaras você atirou os caroços para o alto e foram eles que feriram meu filho no peito. Ele foi atingido e morreu na mesma hora
O mercador empalideceu e compreendeu sua situação e disse ao gênio:
- Sei que errei! Tenho obrigações a cumprir em meu país. Por Alá!  Prometo que voltarei. E você fará o que achar correto. Alá é a garantia de minha palavra.   
E o gênio confiou nele e o deixou partir.
O mercador chegou em seu país e tomou todas as providências. Despediu-se da família e voltou. No local marcado viu somente um velho xeique que conduzia uma gazela presa por uma corda.
Saudou o mercador, desejou-lhe prosperidade e perguntou:
- Qual é a causa de sua parada neste lugar freqüentado pelos gênios?”
O mercador contou-lhe o que havia acontecido. O dono da gazela ficou muito espantado e disse:
- Por Alá! Como sua fé é grande. Não deixarei este lugar. Quero ver o que irá acontecer a você.
De repente, surgiu um segundo xeique conduzindo dois cães negros. E logo em seguida surgiu um terceiro. Conduzia uma mula. Também pediram explicação. Um turbilhão de poeira se levantou e no meio dela surgiu o gênio. Trazia uma gigantesca espada, extremamente afiada. Suas pupilas soltavam faíscas. E falou com voz de trovão: - Chegou a hora de sua morte!!!!
O mercador e os três xeiques começaram a se lamentar. Nisto o primeiro xeique, dono da gazela, levantou-se e foi beijar a mão do gênio dizendo:
- Ó gênio, ó chefe dos reis dos gênios e coroa de todos eles, se eu contar minha história e a desta gazela e você gostar, em recompensa me dará um terço do sangue deste mercador?
O gênio concordou e o primeiro xeique começou a contar a sua história.
- Esta gazela, filha de um tio ficou casada comigo durante trinta anos. Mas Alá não me deu filhos. Tomei uma concubina e eu vi nascer  o mais lindo de todos os seres. Quando ele estava para completar quinze anos precisei viajar por causa de um grande negócio. Eles ficaram sob a proteção de minha esposa. Mas esta gazela foi iniciada, nas artes da feitiçaria e dos encantamentos. Transformou meu filho em bezerro e a mãe dele, em uma vaca colocando-os sob a guarda de nosso pastor. Quando voltei da viagem ela disse que a escrava havia morreu e meu filho fugira.
E durante a festa do Dia dos Sacrifícios, pedi ao pastor que me reservasse uma vaca bem gorda. Ele trouxe a encantada. Notei que o animal chorava e se lamentava. O pastou sacrificou-a e viu que ela tinha só pele e ossos. Resolvi abater um bezerro gordo. O pastor trouxe o que estava encantado. Quando me viu, o bezerro correu para mim gemeu e chorou. Tive dó do animal. Pedi que o pastor trouxesse outro. 
E foi neste instante que Sherazade ouviu o galo cantar pela primeira vez. Amanhecia no Reino da Pérsia. Calou-se. E sua irmã, Doniazade, disse:
- Minha irmã, como tuas palavras são doces, gentis e saborosas. E o pastor trouxe a outra vaca? 
E Sherazade respondeu:
- Querida irmã, eu terminarei esta primeira história como também a dos outros dois xeiques, na próxima noite, se o Rei houver por bem me preservar!
O Rei pensava:  “Não darei ordem ao carrasco enquanto não ouvir o resto desta instigante história”.
O Rei Shariar preparou-se para um dia de exaustivo trabalho junto a seus ministros. Saiu dos aposentos reais e nada falou. Não deu a terrível ordem de todas as manhãs. 
E assim Sherazade foi salva naquela primeira noite.

Vassilisa, a Bela - Março

Vassalisa, a Bela
conto russo




Num certo reino vivia um mercador, sua mulher e a filha Vassalisa. Aos oito anos esta criança presenciou a grave doença de sua mãe que, sentindo a morte se aproximar, chamou-a para dar-lhe conselhos e um presente diferente de todos os outros: uma boneca vestida como a filha: botas vermelhas, avental branco e um lindo colete colorido.
– Preste atenção! Nunca se separe desta boneca. Mantenha-a sempre com você, alimente-a e não a mostre a ninguém. Peça-lhe conselhos quando precisar. Essa é minha benção de mãe. – E com estas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma e saiu correndo pelos lábios; e a mãe morreu.
O tempo passou. Vassalisa e o pai choraram a grande perda. A preocupação daquele homem era dar segurança à filha quando precisasse realizar grandes viagens. Procurou por uma companheira. Foi uma tarefa fácil, pois ele além de ter bens era um homem ainda jovem e bonito. Encontrou uma viúva com duas filhas. Casou-se com ela. No inicio a madrasta e suas filhas pareciam gentis, mas... escondiam corações secos de amor. E a vida da jovem Vassalisa tornou-se um horror.
Vassilisa era a menina mais linda da aldeia, o que causava ciúmes tanto na madrasta como nas irmãs. Vassalisa tornou-se, na ausência do pai, uma serviçal das três desalmadas.
O mercador precisou viajar para longe e a madrasta aproveitou e mudou-se  para uma casa bem próxima a grande floresta, onde morava a bruxa Baba Yaga. Ninguém conseguia chegar próximo a cabana que girava sozinha sob pés de galinha. Caveiras enfeitavam suas paredes, mostrando que humanos haviam sido devorados pela bruxa, como se fossem galinhas.
A malvada madrasta mandava a menina repetidamente à floresta. Vassalisa voltava porque a boneca mostrava-lhe o caminho. Um dia as três malvadas combinaram de deixar o fogo da casa se apagar, para fazer Vassalisa entrar na floresta e pedir fogo para Baba Yaga. Assim seria morta e comida pela bruxa. E naquela noite, quando Vassalisa voltou para casa, depois de catar lenha, a casa estava às escuras. Ela estranhou mas a madrasta lhe disse  que ela era a única que poderia ir a floresta e pedir uma brasa à bruxa.
Vassalisa foi para seu quartinho, ofereceu alimento à boneca e pediu sua ajuda.  Seu conselho foi para entrar na floresta levando-a sempre consigo, pois assim estaria protegida.
E assim Vassalisa fez. A floresta estava mais escura ainda. Os gravetos estalavam sob seus pés e a jovem tremia de medo. De repente, um cavaleiro passou por ela; seu rosto era branco e seu galopante cavalo, também branco. E o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho. E o sol apareceu. Vassalisa caminhou muito e chegou próximo a cabana da Baba Yaga. Um cavaleiro vestido de negro trotando um cavalo negro apareceu. As caveiras e os ossos ao redor da cabana se iluminaram ao mesmo tempo. A noite chegou.  Vassalisa estremeceu mas continuou onde estava.
Baba Yaga era uma criatura temível. Viajava num caldeirão que voava sozinho. Remava esse veículo com a mão de um pilão e varria seu rastro com uma vassoura feita de cabelos humanos – gente que ela havia matado e comido. Um barulho terrível ressoou pela floresta. As arvores estalaram e as folhas secas farfalharam. Baba Yaga cavalgou em seu caldeirão até  o portão gritando que estava sentindo “cheiro de carne humana”.
Vassalisa inclinou-se numa reverência e disse: – Vovó, vim pedir fogo. Está frio em minha casa... o meu pessoal vai morrer!
– E o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?
– Porque estou pedindo, – respondeu Vassalisa (havia consultado a boneca!).
– Você tem sorte. Essa é a resposta certa, – ronronou Baba Yaga. – Mas, antes de eu lhe dar o fogo você tem de viver comigo e trabalhar para mim. Se não..., vou devorá-la.
E virando-se para o portão gritou que ele abrisse. Entrou e jogando-se sobre a cadeira foi ordenando que lhe servisse comida, muita comida, pois estava faminta. Logo deitou-se na cama mas antes deu ordens para o dia seguinte: quintal e cabana limpos, jantar pronto, roupas lavadas e o milho mofado deveria ser separado do milho bom. Ainda reafirmou que se ela não fizesse.... acabaria devorada.
Mais uma vez Vassalisa alimentou sua boneca com as migalhas que sobraram e pediu ajuda. A boneca consolou a jovem dizendo para não ter medo, deitar, orar e dormir. O travesseiro é bom companheiro.
Na manhã seguinte, Vassalisa acordou e olhou pela janela. Os olhos dos crânios estavam se fechando. O cavaleiro branco passou e o dia amanheceu. O cavaleiro vermelho passou rápido como um raio e o sol nasceu. Baba Yaga sentou-se em seu caldeirão e esporeando-o com o pilão partiu voando varrendo as nuvens que deixava pra trás, com a vassoura e o nariz servindo de biruta e o cabelo de vela.
Vassalisa viu que a casa estava limpa e organizada. Ela só cuidaria do jantar da bruxa. À noite Baba Yaga voltou e encontrou tudo arrumado. Ficou satisfeita, mas irritada e foi logo dizendo à jovem que ela era uma criatura de sorte. A bruxa gritou para seus fiéis serviçais que moessem seu trigo. Imediatamente  três pares de mãos começaram a amassar o trigo. A bruxa comeu até se fartar e antes de deitar deu as ordens costumeiras: fazer o mesmo trabalho do dia anterior e tirar a poeira de todas as sementes de papoula, grão por grão.
Dizendo isso Baba Yaga virou-se para a parede e começou a roncar e Vassalisa foi alimentar sua boneca. A boneca comeu e disse-lhe as mesmas palavras da véspera: para orar e dormir, pois o travesseiro é um bom companheiro. Mais uma vez, a boneca executou as tarefas e quando a bruxa voltou, tudo estava pronto. Examinando cada canto da cabana ela gritou:
– Meus servos fiéis, meus queridos amigos, tirem o óleo das sementes de papoula! – E novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa. Enquanto Baba Yaga estava besuntando os lábios na gordura. Vassalisa perguntou:
– Quem era o homem de branco no cavalo branco; o homem de vermelho no cavalo da mesma cor e o homem negro do cavalo negro?
– O homem de branco no cavalo branco era o meu Dia, – respondeu Yaga. – Ah, esse é o meu Sol Nascente. Ah, ele é minha Noite Escura. Porque não faz mais perguntas? – indagou a bruxa. – Você sabe que quem pergunta demais envelhece rápido?
Vassalisa pensou em perguntar sobre os três pares de mãos, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso. E ela nada perguntou.
– E bom que você só tenha perguntado sobre o que viu fora de casa. Não gosto de roupa suja lavada em público. Eu devoro os curiosos. Você é muito ajuizada para sua idade, como consegue isso? perguntou a bruxa.
– Com a ajuda da benção da minha mãe, respondeu Vassalisa.
– Ah, então é isso! – guinchou Baba Yaga, benção! Vá embora, filha abençoada! Não quero saber de gente abençoada em minha casa! – Empurrou-a portão afora, pegou uma caveira com olhos esbraseados, espetou-a numa vara, deu à meninas dizendo que era o fogo que precisava.
Vassalisa correu para casa sentindo medo da luz espectral do crânio. Andou toda a noite, atravessou a floresta, com o brilho do fogo que vinha da caveira. Pensou em se desfazer da caveira, mas esta lhe disse: – Não me jogue fora, leve-me para sua madrasta.
Vassalisa chegou em casa, finalmente. A madrasta e filhas esperavam por ela desesperadamente. Estavam sem fogo. Elas não conseguiam manter o fogo acesso. Vassalisa entrou em casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido a sua perigosa jornada e ter trazido o fogo para casa.
A caveira na vara observava cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. De manhã, elas já tinham virado cinza.
Só Vassalisa permaneceu intocada pelo fogo.

A Pequena Vendedora de Fósforos - Abril


A Pequena Vendedora de Fósforos
Andersen






Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano.
Em meio ao frio e à escuridão uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.
Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pezinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.
A menininha os perdera quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa, sacolejando.
Um dos chinelos não mais foi encontrado, e um menino se apoderara do outro e fugira correndo.
Depois disso a menininha caminhou de pés nus - já vermelhos e roxos de frio.
Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um feixinho deles na mão.
Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer um níquel.
Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.
Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano Novo.
Sim: nisso ela pensava!
Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.
Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão.
O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.
Suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha...
Que luz maravilhosa!
Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.
Riscou um segundo fósforo.
Ele ardeu e, quando a sua luz caiu em cheio na parede, ela se tornou transparente como um véu de gaze e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado. Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito!
Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria.
Acendeu outro fósforo e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.
"Alguém está morrendo", pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.
Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.
- Vovó! - exclamou a criança. - Oh! leva-me contigo! Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar! Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!
E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera tão grande e tão bela. Tomou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.
Na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.
O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver.
A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados.
- Queria aquecer-se - diziam os passantes.
Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentira no dia do Ano­ Novo.