sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Urashima e a Tartaruga - Maio


Urashima e a Tartaruga
conto japonês






Muitos anos atrás, no Japão, vivia um jovem pescador a beira do mar, onde as grandes ondas verdes quebravam na praia como nuvens de água salgada. Esse moço, Urashima Taro, amava a água como se fosse sua irmã, e passava muitos dias em seu bote, desde o púrpura da madrugada até o lilás do anoitecer.
Um dia, passando pela praia, ele se aproximou, curioso, de crianças agrupadas ao redor de alguma coisa, descobriu que elas estavam maltratando uma tartaruga e, ao ver aquela maldade, gritou:
- Ei amigos, não façam isto com esta tartaruga! Ela é parte da natureza e é importante para todos, deixem-na seguir o seu caminho!
O grupo logo se dispersou e Urashima pôde levar a tartaruga ferida para sua casa e cuidar dela. Quando a tartaruga ficou boa, o jovem devolveu-lhe a liberdade nas águas do mar e, imediatamente, a tartaruga nadou para as profundezas e desapareceu nas ondas.
Tempos depois, quando Urashima Taro estava pescando em alto mar, uma tartaruga se aproximou de seu barco e falou:
- Obrigado por me salvar das crianças que me feriram e, como agradecimento, lhe faço um convite de vir comigo conhecer o mundo encantado do fundo do mar. Venha encontrar meu povo, que vive milhas e milhas abaixo das ondas verdes, no Palácio do Dragão do Mar. Venha amigo e levarei você até lá em minhas costas.
Urashima aceitou e lá se foram na direção das profundezas, a tartaruga levando Urashima sobre o seu caso. Antes do anoitecer eles já haviam chegado ao Palácio do Dragão do Mar, todo feito de conchas e corais, pérolas e esmeraldas. Lá o rugido das ondas da superfície se transformara em um murmúrio trêmulo que fazia o silêncio mais doce e a luz do sol chegava como um crepúsculo. Peixes com nadadeiras de prata estavam esperando por eles.
Uma bela moça veio recebê-los, a Princesa Otohime, filha do dono do Palácio que, ao agradecer Urashima por sua bondade com a tartaruga, disse:
- Você é bem vindo e poderá ficar aqui por quanto tempo desejar.
Houve uma grande festa e danças, e a Princesa cantou para homenagear o visitante enquanto eram servidas comidas raras e deliciosas que o oceano guarda para seus filhos.
Urashima viveu um sonho de felicidade com a Princesa do Palácio do Dragão do Mar. Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses e Urashima se sentia tão bem no Palácio do Dragão do Mar que se esqueceu até do tempo que estava lá. Até que um dia, depois de haver passado quatro anos, ele lembrou de sua terra, desejou rever seus pais e a sua família. Ele lembrava com saudade das ruas da vila e da faixa de areia lambida pelas ondas onde costumava brincar em sua infância. Urashima não precisou falar de seu desejo à princesa pois ela já sabia de tudo, e Otohime lhe disse com tristeza:
- Tenho medo de deixá-lo ir, mas vejo que tem muita saudade de casa e de sua família. Não vou prendê-lo mas sei que você vai querer retornar ao fundo do mar. Leve então este presente, esta caixinha mágica que não deixará que nada lhe aconteça. Quando olhar para ela, lembre-se de como foi feliz aqui, mas não abra esta caixa porque, se ele for aberta, você nunca mais poderá voltar aqui para o fundo do mar.
E a Princesa lhe entregou uma caixinha de madrepérola decorada com um lindo laço de pérolas e corais. Com a caixa em mãos, Urashima Taro retornou para a praia tão conhecida de sua vila, viajando nas costas de sua amiga a tartaruga.
Ele sabia que logo depois, na baía, ficava a casa de seu pai, junto a um grande pinheiro. Mas quando foi chegando perto, não viu a casa, nem o pinheiro. Olhou ao redor e as outras casas também lhe pareceram estranhas e ele viu pessoas desconhecidas que andavam pelas ruas. Ele ficou espantado com tamanha mudança em tão pouco tempo e, quando um homem velho veio caminhando pela praia, Urashima lhe perguntou:
- Por favor, o senhor poderia me dizer onde fica a casa de Urashima?
- Urashima? - disse o velho, - Urashima! Contam que ele se afogou quando pescava e seus pais e irmãos já viveram e morreram faz anos. Isto aconteceu quatrocentos anos atrás, contam que num dia de verão como este.
Haviam passado quatrocentos anos e não quatro como Urashima pensava! E tudo que conhecia havia desaparecido! Seu pai, sua mãe, seus irmãos e seus companheiros de brincadeiras, a casa, a vila, tudo o que ele tanto amava. Sentiu-se solitário, perdido. Percebeu que precisava correr de volta ao Palácio dos Dragões que era agora seu único lar. Mas como retornar? Ele andou pela praia sem conseguir se lembrar do caminho de volta.
Finalmente, triste e desiludido, perturbado e confuso, esquecendo a promessa que fizera à princesa, ajoelhou-se na areia, pegou a caixinha de madrepérola e abriu-a. Elevou-se uma nuvem de fumaça branca e, enquanto ela se dissipava no ar, Urashima pensou ver o rosto da Princesa do Dragão. Em vão a chamou, tentou alcançá-la... a nuvem já flutuava sobre as ondas distantes, na direção do horizonte.
De repente ele sentiu um imenso cansaço. Suas mãos pareciam tremer, seu corpo se encurvou, sua pele se enrugou, seu cabelo se tornou branco. Em poucos instantes, Urashima envelheceu, sentindo-se como que unido ao passado em que fora feliz.
Quando a lua pendurou seu crescente de luz na abóboda do céu, só restavam na areia da praia uma caixinha de madrepérola e as grandes ondas verdes que abriam seus braços de espuma branca.
E haviam passado quatro centos anos.

O Pequeno Polegar - Junho


O Pequeno Polegar
Perrault






Uma família de camponeses muito pobres vivia com seus sete filhos, ainda pequenos, num povoado próximo a uma grande floresta. Naquele tempo esta região e toda a Europa passavam por dificuldades e a fome era grande. Não havia como obter alimento em lugar algum. Mas apesar de tudo as crianças eram saudáveis. O mais novo deles, de tão pequeno, ficou com o nome de Pequeno Polegar. Era esperto, sabido e tudo observava a seu redor.
O pai das crianças começou a pensar em deixar as crianças na floresta porque não havia comida suficiente em casa. A mãe ficou desesperada, mas acabou aceitando porque não tinha outra solução. Decidiram não contar nada para os filhos e ir na floresta no dia seguinte com a desculpa de buscar lenha. Pequeno Polegar, que tinha escutado toda a conversa escondido, saiu de mansinho e foi buscar umas pedrinhas brancas nas areias da margem do rio.
Saíram cedo pela manhã. Andaram muito e pegaram os gravetos que precisavam. E, aos poucos, os pais foram se afastando sem que as crianças notassem. Quando os pequenos notaram sua ausência, já era tarde. Não sabiam como voltar. Começaram a chorar. Mas Pequeno Polegar acalmou os irmãos e os levou para casa, seguindo as pedrinhas que, na vinda, havia deixado cair pelo caminho.
Quando chegaram os pais os abraçaram chorando de felicidade. E, naquele dia, o pai recebeu um dinheiro e puderam jantaram até se saciar. Mas a fome voltou tempos depois. De novo, os pais falaram em deixar os filhos na floresta. Pequeno Polegar, ouvindo a conversa, quis correr para fora... e encontrou a porta trancada. No dia seguinte, aconteceu igual da outra vez. Pequeno Polegar tinha um pedaço de pão no bolso e espalhou migalhas para marcar o caminho. De novo o pai deixou os filhos sozinhos no meio da floresta. Mas quando Pequeno Polegar quis voltar, seguindo as migalhas de pão, viu que os passarinhos tinham comido tudo.
A noite chegou e as crianças, assustadas e famintas, sentiram-se muito sós. Pequeno Polegar subiu em uma grande arvore e gritou ter visto um castelo iluminado. Seguiram alegremente para onde estava a luz. Só que eles não sabiam que ali morava um gigante enorme e feroz, na verdade um ogro. Bateram à porta e uma mulher veio atender. Sentiu pena daquelas crianças desprotegidas e sozinhas. Deixou-as entrar sabendo do risco que elas corriam: o gigante gostava de comer criancinhas! Acolheu as crianças, alimentou-as e escondeu todos em lugar bem seguro.
O gigante chegou em casa faminto e cansado. Imediatamente sentiu cheiro de carne humana! Procurou, encontrou, e as estava ajeitando para comer quando a mulher sugeriu que deixasse as crianças engordarem um pouco. Estavam muito magrinhas. O gigante concordou e disse: 
- Prepare um jantar para estes garotos, pois você sabe que gosto de crianças bem gordinhas!
Após o jantar o gigante ordenou que os meninos fossem dormir na cama ao lado de suas queridas filhas. Ele tinha sete meninas ainda pequenas que amava muito e tratava como princesas. Exigia até que usassem coroinhas de ouro.
Pequeno Polegar era muito esperto. E logo que todos estavam dormindo ele fez uma troca. Tirou os gorrinhos de lã dele e dos irmãos, trocando pelas coroinhas das meninas.  Na verdade o gigante queria mesmo comer Pequeno Polegar e seus irmãos naquela mesma noite, sem piedade! Pegou um facão e foi para o quarto. Estava tudo um escuro só e ele foi apalpando as cabeças para encontrar os meninos. Passou a mão pelas cabeças das filhas e achou os gorrinhos. E, com o facão, degolou as meninas. Assim que o ogro foi dormir, Pequeno Polegar acordou os irmãos e fugiram bem depressa.
Quando o gigante percebeu o que tinha feito,  calçou suas botas de sete léguas e saiu furioso em busca dos meninos. Correu muito, subiu e desceu montanhas, atravessou rios, olhou atrás das moitas... e nada. Mas as crianças o viram chegar e se esconderam numa rocha oca.
De tanto correr, o gigante tinha ficado exaurido, sem forças. Resolveu deitar e dar um cochilo logo na rocha onde estavam os meninos! Começou a roncar fazendo um barulho ensurdecedor. Foi aí que Pequeno Polegar saiu do esconderijo e se aproximou do gigante. Viu que as botas dele tinham algo diferente. Tirou-as e as calçou – e não é que as botas eram encantadas! Elas se  ajustaram perfeitamente ao seu tamanho. Pequeno Polegar já tinha pensado em um plano. Correu e num instante estava na casa do ogro. Chamou a mulher e falou assim:
- Depressa! Seu marido foi aprisionado por um bando de malfeitores e querem em troca ouro, jóias e pedras preciosas. O gigante me mandou buscar o que está escondido aqui. Ele até me emprestou suas botas para chegar bem rápido, antes que ele morra!
A mulher aflita entregou ao menino tudo o que possuía de mais valioso. E assim Pequeno Polegar voltou  para sua casa, acompanhado de seus irmãos e carregado de muita riqueza. Os pais os receberam com grande alegria e disseram:
- A floresta devolveu nossos filhos com uma fortuna!

A princesa e a Ervilha - Julho


A Princesa e o grão de ervilha

Andersen






Era uma vez um príncipe que queria se casar e decidiu ir pelo mundo afora buscar uma verdadeira princesa.
 Montando em seu belo cavalo ele viajou pelos reinos mais distantes, de Norte a Sul e de Este a Oeste, à procura da princesa de seus sonhos, encontrou um número incalculável de princesas, algumas muito lindas,  mas nenhuma fez seu coração bater com força.
O príncipe retornou ao seu castelo, onde seus pais o esperavam, desiludido,  pois gostaria muito de ter encontrado uma princesa de verdade.
Uma  certa noite, uma trovoada terrível sacudiu o palácio e desabou uma tempestade no reino. Eram relâmpagos iluminando o céu, raios estrondosos, vento assobiando nas arvores e um aguaceiro sem fim no castelo! Em meio aos trovões, uma pobre menina, completamente perdida,  caminhava debaixo da chuva.
 Chegou diante do palácio e bateu na porta. O rei em pessoa foi atender – os criados estavam ocupados enxugando os cômodos cujas janelas foram abertas pela tempestade – e com espanto e piedade olhou para a menina, que tremia de frio e de cansaço parada na porta do castelo.
A menina dizia ser uma princesa. Mas estava encharcada de tal modo que os seus cabelos estavam em frangalhos, as roupas grudadas ao corpo, os sapatos enlameados, as meias quase desmanchando; apesar de tudo tinha um belo aspecto.  Era difícil acreditar que fosse realmente uma princesa!
Porém, a moça tanto afirmou que era uma princesa que a rainha pensou numa forma de provar se o que dizia era verdade.
Ordenou que sua criada de confiança empilhasse muitos colchões, cobertores e lençóis no quarto das visitas e, sem que a hóspede soubesse, colocou embaixo deles um pequeno grão de ervilha verde. Aquela seria a cama da hóspede da moça que se dizia princesa.
Quando foi dormir, após um bom banho e já com roupas secas e quentes, a moça estranhou a altura da cama, mas conseguiu, com a ajuda de uma escada, se deitar.
No dia seguinte, a rainha perguntou como ela havia dormido.
– Oh! Senhora, não consegui fechar os olhos – respondeu a moça – havia qualquer coisa tão dura na minha cama que me deixou até com manchas roxas nas costas e me foi impossível dormir !
O rei, a rainha e o príncipe se olharam com surpresa e o príncipe sorriu com um ar feliz. A moça era realmente uma princesa! Somente uma princesa verdadeira teria pele tão sensível para sentir um grão de ervilha sob tantos  colchões e lençóis!
O príncipe, realizado, se casou com a princesa. A ervilha foi colocada no tesouro real e, se ninguém a roubou, ainda está por lá...
Portanto, esta é uma história real!

A Montanha de Cristal - Agosto


A Montanha de Cristal
conto norueguês






Era uma vez um homem que tinha uma mata na montanha, mas não conseguia fazer uma reserva de feno porque cada ano, na noite de São João, toda a grama sumia misteriosamente, como se um rebanho inteiro tivesse passado por lá. Finalmente, o homem perdeu a paciência e mandou o mais velho dos seus três filhos passar a noite na choupana que ali tinha e vigiar.
O filho mais velho jurou que ia vigiar tão bem que nem homem nem demônio conseguiriam roubar a grama! Deitou no chão da choupana e logo adormeceu. De repente, a meia-noite, poderosos estrondos fizeram tremer chão, paredes e teto. O moço ficou tão apavorado que saiu correndo, sem olhar para trás. E, na manhã seguinte, toda a grama tinha sumido, como sempre. No ano seguinte, o homem mandou o filho do meio. E aconteceu tudo novamente.
Quando chegou mais uma vez a noite de São João, mandaram o filho mais novo, Askeladden, que só sabia ficar deitado nas cinzas da lareira e sonhar. Os irmãos caçoaram dele:
- Logo você que não sabe fazer nada vai tomar conta da mata!
Mas ele não se importou com o que disseram e foi. Quando começou o barulho, ele pensou: “Se não piorar, acho que dá para aguentar.” Assim que tudo ficou calmo, ele saiu da choupana e deparou com o cavalo mais belo que jamais tinha visto, um alazão arreado de cobre reluzente, carregando uma armadura de cavalheiro feita de cobre também. Estava pastando com vontade. O moço se aproximou, falou-lhe ao ouvido até o cavalo o deixar montar nas suas costas. Askeladden o levou então até uma pradaria escondida nas montanhas, um lugar especial que só ele conhecia e onde o deixou.
Em casa foi acolhido com zombaria, mas disse com tranquilidade:
- Dormi até o sol nascer. Não escutei nada e não faço a mínima idéia do que pode ter amedrontado vocês.
Os irmãos se apressaram a subir na montanha mas, ao chagar na mata, ficaram espantados: a grama estava densa e alta como devia estar. Não entenderam nada. No ano seguinte, recusaram-se a ficar lá. Apenas Askeladden aceitou passar outra noite de São João na montanha. Aconteceu tudo de novo, só que os estrondos ficaram duas vezes mais poderosos. E quando tudo se acalmou, Askeladden avistou um cavalo mais belo ainda que o alazão, um baio arreado de prata, carregando uma armadura de prata rutilante. De novo, Askeladden conseguiu que o cavalo o deixasse montar e o levou para seu lugar secreto.
Na noite de São João seguinte, depois de ouvir estrondos mais poderosos ainda, quando tudo ficou calmo, Askeladden levou um maravilhoso cavalo negro, arreado de ouro e carregando uma armadura de ouro resplandecente, para o mesmo lugar.
Naquele ano, um edito real foi proclamado em todo o reino. O rei tinha uma filha, famosa pela sua beleza, e queria casá-la. Mas ela estava sentada com três maçãs de ouro no alto da Montanha de Cristal, cujas paredes verticais eram absolutamente lisas. Ao cavaleiro que buscasse as três maçãs de ouro, o rei prometia a sua filha em casamento assim como a metade de seu reino.
No dia marcado, uma multidão se reuniu ao pé da montanha pra ver o espetáculo. Príncipes e cavalheiros brilhantemente vestidos e montados tinham chegado de longe para tentar a sua sorte. Os irmãos de Askeladden também foram ver, mas se recusaram a levá-lo:
- Você é tão feio e sujo que todos vão rir de sua cara.
- Não tem problema, não estava a fim de ir mesmo.
Quando os cavaleiros começaram a subir na montanha, os cascos de seus cavalos escorregaram na parede que parecia um espelho. Tentaram horas a fio. Por fim todos estavam exaustos, os animais espumando e cobertos de suor, e nenhum tinham conseguido subir nem um metro.
O rei já ia dar ordem de interromper as tentativas, que seriam retomadas no dia seguinte, quando apareceu um cavalheiro vestindo uma armadura de bronze reluzente, montado num magnífico alazão arreado de bronze. Sem hesitar, aproximou-se da parede e começou a subir. Chegou até um terço da montanha e parou. A princesa olhou para ele, gostou do que viu e desejou que viesse até ela. Lançou-lhe uma maçã de ouro. Ele a pegou, mas fez seu cavalo dar meia-volta e foi embora, galopando tão rápido que ninguém pôde segurá-lo.
Os irmãos de Askeladden chegaram em casa excitadíssimos, falando daquele cavalheiro desconhecido.
- Bem que eu queria ver este cavaleiro.
- Pode esquecer! Fique aí na sua lareira. Nós é que vamos amanhã.
Os cavaleiros tinham trocado as ferraduras de seus cavalos e recomeçaram as suas tentativas. Em vão. Então chegou um cavalheiro vestido com uma armadura de prata rutilante, montado num magnífico baio arreado de prata. Sem hesitar, começou a subir a parede lisa e chegou até dois terços da montanha. A princesa lhe jogou outra maçã de ouro. Ele a pegou... e foi embora, galopando como o vento.
No dia seguinte, todos esperavam a chegada do cavalheiro de prata. Mas chegou um cavalheiro vestido com uma armadura de ouro resplandecente que brilhava como o sol, montado num majestoso cavalo preto arreado de ouro. Todos o acompanharam com o olhar. Viram-no alcançar o topo da montanha, pegar a terceira maçã de ouro, sentar a princesa radiante na sua frente e dar-lhe um beijo. O rei esperava ansioso para descobrir quem era o pretendente vitorioso. Mas o cavalheiro apenas entregou a princesa ao seu pai e foi embora, galopando mais rápido que o vento.
O rei mandou convocar o homem que possuía a terceira maçã de ouro ao palácio. Ninguém se apresentou.
Ordenou então que todos os homens do reino se apresentassem diante dele. Os irmãos de Askeladden foram os últimos a chegar. Disse o rei:
- Deve haver mais alguém! Nós vimos um cavalheiro pegar a maçã de ouro!
- Majestade, temos mais um irmão em casa, mas com certeza não é ele.
- Que venha aqui!
Quando Askeladden chegou, vestindo seu casaco sujo de cinzas, o rei lhe perguntou:
- Está com a terceira maçã de ouro?
- Aqui está.
Askeladden tirou do bolso todas as três maçãs. E o casaco caiu por terra, revelando o cavalheiro resplandecente na sua armadura de ouro.
O casamento de Askeladden com a princesa foi celebrado no mesmo dia. Todos foram convidados.
E foi uma bela festa porque não precisa saber subir numa montanha de cristal para saber comer, beber, divertir-se e festejar!

O Fio Mágico - Setembro


O Fio Mágico

conto francês





                                

Era uma vez num vilarejo um menino chamado Pierre. Tinha perdido o pai e, como homem da casa, ajudava muito sua mãe: limpava a casa, fazia compras, cuidava do jardim, cortava lenha. Pierre não gostava da escola. Preferia sonhar acordado. As aulas de história, particularmente, eram um tédio porque ele pensava muito mais no futuro do que no passado e gostava de imaginar o que faria mais tarde, quando seria adulto.
“Como é difícil esperar”, pensava Pierre. Patinando no lago gelado ele lamentava: “Poderia tanto ser verão !” E quando chegava o verão, ele ansiava pelo outono para poder soltar sua pipa. No outono só lembrava da beleza da primavera quando se abriam as flores e nasciam as folhas nos galhos. Mas assim que a primavera chegava, ele já imaginava as manhãs frias do inverno, suas noites misteriosas e geladas. Quando sentava no banco da escola de manhã ele desejava que fosse de tarde. E no domingo de noite, deitado na sua cama, suspirava: “Ah ! se as férias pudessem começar já !”
Pierre, que adorava inventar brincadeiras, tinha muitos amigos. Mas sua grande paixão morava na casa ao lado e se chamava Lisa. Ela corria tão rápido quanto um menino e nunca ficava brava com ele, mesmo quando ele ficava impaciente com ela. Muitas vezes, quando ela vinha buscá-lo, ele pensava: “Ah ! queria ser gente grande para casar com a Lisa...”
Num dia ensolarado de férias, Pierre foi passear na floresta. Deitou numa clareira e adormeceu ao calor do sol. Uma voz chamando seu nome o despertou. Viu uma velha senhora que não conhecia – e Pierre conhecia todos os habitantes do vilarejo. Ela era estranha, vestia roupas esquisitas, mas sorriu para ele e disse gentilmente:
– É verdade que o momento presente nunca é o momento certo para você ? Pois fique contente: tenho aqui algo que pode ajudar, se você quiser. Olhe ! – Na mão dela estava uma pequena bola prateada com um buraquinho do qual saía a ponta de um delicado fio de ouro.
– Vou contar um segredo: esta bola é mágica ! Está vendo este fio ? É o fio do tempo. É só puxar que o tempo passa rapidinho. Você quer?
Pierre ficou encantado. Será verdade ? Tédio, medo, tristeza, tudo poderia ser apagado num instante com a pequena bola ?!
– Oh sim ! Me dá ! Eu quero a bola mágica, por favor !
– Tudo bem. Mas antes vou lhe dar um conselho:  lembre-se que nunca poderá reaver o tempo passado. Desaparecerá como fumaça. É melhor não puxar o fio com muita freqüência nem com muita força. Se quiser que o tempo passe devagar, como passa para todo mundo, apenas não toque no fio. E não pode contar da bola para ninguém senão, naquele dia, você morrerá.
E Pierre pegou a bola prateada. Quando olhou, a velha tinha desaparecido. Ele teve vontade de puxar o fio só um pouquinho, só para ver, mas ficou com medo e não quis se arriscar.
Mas, no dia seguinte, quando o professor brigou com ele porque não estava prestando atenção durante a aula, Pierre não resistiu e puxou o fio com muito cuidado. Na mesma hora a aula acabou. Encantado com o resultado ele caiu na tentação de puxar o fio sempre mais. Começou para ele uma vida ótima, feita de feriados e férias. Infelizmente ele aprendia muito pouco, porque mal frequentava a escola, mas ele não estava nem aí. “Se fosse gente grande poderia trabalhar, casar com Lisa e não precisaria puxar o fio tanto.” Assim ele resolveu deixar a infância e puxou um grande pedaço de fio.
Na manhã seguinte ele já era aprendiz de carpinteiro. A vida ficou maravilhosa. Ele gostava de seu trabalho.  Quando o dia do pagamento demorava a chegar ele puxava o fio até receber seu salário. Terminado seu aprendizagem ele ganhava bastante para pedir Lisa em casamento. Ela aceitou com muita alegria e marcaram o casamento para daqui a algumas semanas. Alguns dias antes do casamento ele recebeu uma convocação. Chamavam-no para servir durante dois anos no exército.
Pierre gostou do exército: fez amigos e, lembrando das recomendações da velha, tentou não puxar o fio. Mas logo a vida de soldado ficou chata. Cada dia ele puxava o fio mais um pouquinho, até poder voltar para casa.
Começou então o fase mais feliz, mais perfeita da sua vida. O casamento foi um dia alegre para todos e Pierre mal podia esperar a hora de levar Lisa até a casinha que ele tinha construído com as próprias mãos. Durante o banquete ele notou que os cabelos de sua mãe já estavam brancos. “Puxei demais o fio !” pensou arrependido e decidiu tocar nele o menos possível.
Semanas tranquilas passaram. Lisa ficou grávida. Impaciente, Pierre puxou o fio para apressar o nascimento de seu filho. Mas Pierre não podia suportar vê-lo doente ou chateado e puxava o fio toda hora. Começou a ter problemas de trabalho, faltava dinheiro em casa. Ele pensou: “minha bola mágica é útil exatamente para este tipo de situação. Preciso aproveitar.” Quando os dias calmos voltaram, Pierre parou de puxar o fio.
Um dia ele notou com surpresa que o fio não era mais dourado, mas prateado. E se deu conta de que o fio não duraria para sempre. Estava feliz com a Lisa. Outros filhos nasceram, trazendo mais alegria, mas exigindo cuidados, roupas, comida. Uma noite, Pierre começou a pensar: “Se nossos filhos fossem crescidos, com uma profissão séria, a vida seria mais agradável.” E ele puxou o fio até todos eles terem ficado independentes e saído de casa. Todas estas experiências não tinham ensinado Pierre a ser paciente. Qualquer aborrecimento era motivo para puxar o fio. A vida passou sempre mais rápida, mas nunca voltou a ser perfeita. O trabalho começou a cansar Pierre demais. Ele já não conseguia subir nos andaimes, demorava mais para entregar as encomendas. Chamou seu filho mais velho, a quem tinha ensinado o trabalho de marceneiro, e lhe disse que estava se aposentando. Já era avô e achava graça quando o neto mais novo lhe dizia:
– Quero ser grande e ir para a escola com meus irmãos. – Ou: – Se fosse gente grande, eu poderia construir casas como você !
Nas noites de verão, Pierre sentava na varanda da sua casa e fumava o cachimbo olhando para os campos. Já não sonhava mais com o futuro porque sabia que sua vida estava acabando e tinha medo. Como todos os velhos, tentava buscar refúgio no passado. Mas, pobre Pierre, ele não tinha muitas lembranças. Sua vida tinha passado tão depressa, os prazeres tinham sido tantos, um tão logo atrás do outro, que era difícil lembrar direito. Ele não podia dizer, como os outros idosos: “Posso me orgulhar de ter superado este momento difícil.” Ou: “Não lamento meus sofrimentos porque me ensinaram muito.”
E, um dia, notou apavorado que o fio tinha ficado cinza. Olhou para sua mulher e a viu cansada e curvada. No espelho viu um rosto cheio de rugas, seus poucos cabelos eram brancos. Sentiu necessidade de passear na floresta, respirar o ar puro. Caminhou até uma clareira onde sentou e adormeceu. De repente, ouviu uma voz chamando seu nome. Esfregou os olhos e viu a mesma velha, nem mais idosa, nem mais nova.
– Então, Pierre ? Como vai ? Me conta: sua vida foi feliz ?
– Na verdade –, disse Pierre, – não sei. Sua bola mágica é maravilhosa. Nunca tive de esperar ou sofrer na minha vida, mas passou tudo tão rápido que mal percebi. Era tão impaciente... queria que tudo fosse sempre melhor e agora estou aqui, velho e fraco. Não puxo mais o fio para poder viver em paz os últimos anos de minha vida. Imagino que não posso me queixar, mas seu presente não me trouxe a felicidade com a qual sonhava.
– Como é possível ? – disse a velha, – você não é muito agradecido. Diga-me, já que você é tão esperto, no meu lugar você teria feito melhor ?
– Você deveria ter me dado um outro tipo de bola –, sugeriu Pierre, – na qual se pode colocar o fio de volta. Assim poderia ter aprendido com meus erros e a vida não teria passado tão depressa.
– Infelizmente isto é impossível. Deus não permite. Mas vou realizar um desejo seu, homem mimado. Pense no que você mais quer no mundo.
Pierre pensou profundamente: – Desejaria recomeçar minha vida, mas sem sua bola mágica desta vez.  Quero viver como os outros homens. Se tiver alegria, que bom. Se sofrer, que assim seja.
A velha sorriu : – Seu desejo será realizado. Se é isto que você realmente quer, devolva-me a bola mágica.
Assim que Pierre o fez, caiu num sono profundo. Quando acordou, ficou muito surpreso em ver que estava de volta na casa da sua infância, no seu quarto de menino. Sua mãe, sentada na beira da cama, era jovem de novo. Sorriu para ele e disse:
– Finalmente acordou !
– Onde estou ? – perguntou Pierre espantado.
– Na sua cama, claro, menino levado. Você ficou tanto tempo no sol que pegou uma insolação e teve muita febre. Teve pesadelos terríveis. Ficava falando de uma bola mágica e de um fio de ouro. Não entendia nada. Que bom que você está fora de perigo agora.
Pierre abraçou a mãe. – Então Lisa e eu não somos velhos ?
– Você está delirando de novo –, disse a mãe preocupada. – Lisa está ali na sala, esperando para ver você.
E chamou: – Lisa ! Vem ver o Pierre !
A menina entrou, enxugando escondido uma lágrima.
– Lisa ! – gritou Pierre, – sarei ! Amanhã irei para a escola e um dia nós dois vamos casar. Mas agora vamos brincar !
Quando pulou da cama, notou que um pedacinho de fio de ouro tinha ficado preso na sua roupa.

O Flautista de Hamelin - Outubro


O Flautista de Hamelin
Irmãos Grimm






Há muito, muitíssimo tempo, na próspera cidade de Hamelin, aconteceu algo muito estranho: uma manhã, quando seus gordos e satisfeitos habitantes saíram de suas casas, encontraram as ruas invadidas por milhares de ratos que iam devorando, insaciáveis, os grãos dos celeiros e a comida de suas bem providas despensas. Ninguém conseguia imaginar a causa de tal invasão e, o que era pior, ninguém sabia o que fazer para acabar com tão inquietante praga. Por mais que tentassem exterminá-los, ou ao menos afugentá-los, parecia ao contrário que mais e mais ratos apareciam na cidade. Tal era a quantidade de ratos que, dia após dia, começaram a esvaziar as ruas e as casas, e até mesmo os gatos fugiram assustados.
Diante da gravidade da situação, os homens importantes da cidade, vendo perigar suas riquezas pela voracidade dos ratos, convocaram o conselho e disseram:
— Daremos cem moedas de ouro a quem nos livrar dos ratos.
Pouco depois se apresentou a eles um flautista taciturno, alto e desengonçado, que ninguém havia visto antes, e lhes disse:
— A recompensa será minha. Esta noite não haverá um só rato em Hamelin.
Dito isso, começou a andar pelas ruas e, enquanto passeava, tocava com sua flauta uma melodia maravilhosa que encantava aos ratos, que iam saindo de seus esconderijos e seguiam hipnotizados os passos do flautista que tocava incessantemente. E assim, caminhando e tocando, levou-os a um lugar muito distante, tanto que nem sequer poderiam ver as muralhas da cidade. Por aquele lugar passava um caudaloso rio onde, ao tentar cruzar para seguir o flautista, todos os ratos morreram afogados.
Os hamelinenses, ao se verem livres das vorazes tropas de ratos, respiraram aliviados. E, tranquilos e satisfeitos, voltaram aos seus prósperos negócios e tão contentes estavam que organizaram uma grande festa para celebrar o final feliz, comendo excelentes manjares e dançando até altas horas da noite.
Na manhã seguinte, o flautista se apresentou diante do Conselho e reclamou aos importantes da cidade as cem moedas de ouro prometidas como recompensa. Porém esses, liberados de seu problema e cegos por sua avareza, reclamaram:
— Saia de nossa cidade! Ou acaso acreditas que pagaremos tanto ouro por tão pouca coisa como tocar a flauta?
E, dito isso, os honrados homens do Conselho de Hamelin deram-lhe as costas dando grandes gargalhadas.
Furioso pela avareza e ingratidão dos hamelinenses, o flautista, da mesma forma que fizera no dia anterior, tocou uma doce melodia uma e outra vez, insistentemente.
Porem desta vez não eram os ratos que o seguiam e sim as crianças da cidade que, arrebatadas por aquele som maravilhoso, iam atrás dos passos do estranho músico.
De mãos dadas e sorridentes, formavam uma grande fileira, surda aos pedidos e gritos de seus pais que, entre soluços de desespero, tentavam impedir que seguissem o flautista, e tivessem o mesmo fim que os ratos. Mas o flautista mudou de rumo, em direção à colina que domina a cidade. Chegando ao sopé do monte, o alegre cortejo parou um instante. Um enorme portal se abriu de par em par na base da colina, engolindo o flautista e o seu séquito e fechando-se quando a última criança o atravessou.
Dissemos «a última»? Não, desculpem, enganamo-nos. Uma daquelas crianças era manca e ficou para trás. Regressou à cidade chorando e disse à mãe que a abraçava:
— Ah! O que eu perdi! Olha, o flautista estava nos levando para o País da Felicidade. Lá as águas jorram límpidas, as flores têm cores maravilhosas, os pardais são mais enfeitados do que os pavões, as abelhas não têm ferrão, os cavalos têm asas. Ai de mim! Como sou infeliz!
E na cidade só ficaram os seus opulentos habitantes, seus bem repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por suas sólidas muralhas. Agora o menino manco brincava sozinho num imenso manto de silêncio e tristeza.
Dias depois, não suportando mais a solidão e a saudade, ele seguiu o caminho do músico, passou as muralhas da cidade e tomou o rumo da colina. Chegou cansado ao sopé do monte e procurou uma abertura na rocha escura, mas só havia pedra, arbustos, plantinhas crescendo nas fendas. De repente sentiu algo debaixo de seu pé e, ao agachar encontrou, caída no chão, uma flauta. Da mesma forma que fizera o flautista, insistentemente, tocou a doce melodia que encantava as crianças e que tinha gravado na memória. E o enorme portal se abriu novamente; uma a uma apareceram todas as crianças aprisionadas, as maiores segurando a mão das menores. Foi num alegre cortejo que voltaram à cidade e todos os hamelinenses vieram ao seu encontro. Houve gritos, exclamações, risos e choro quando os pais, emocionados, abraçaram e beijaram os filhos que tinham pensado não rever jamais.
E foi isso que se sucedeu, há muitos, muitos anos, na próspera cidade de Hamelin.

Rosa Branca e Rosa Vermelha - Novembro

Rosa Branca e Rosa Vermelha

Irmãos Grimm






Era uma vez uma viúva que morava no meio da floresta. Na frente de sua casa, havia duas roseiras: uma vermelha e outra branca. A viúva tinha duas filhas muito lindas, doces e boas, às quais deu o nome de Rosa Branca e Rosa Vermelha. Sempre estavam juntas e de tão meigas e doces até as corças e os veadinhos pastavam tranquilamente ao lado delas. Durante o inverno, elas costumavam ficar em frente à lareira com sua mãe enquanto esta lia algumas histórias.
Certa noite, quando fazia muito frio e a floresta estava coberta por neve, escutaram uma batida na porta.
- Abra a porta Rosa Vermelha, – disse a mãe.
A menina obedeceu, pensando que seria algum viajante perdido no meio da nevasca. Mas, para sua surpresa, deparou-se com um enorme e assustador urso.
- Não tenha medo, – disse o urso. – Eu não vou machucar você! Estou congelado de tanto frio! Posso me esquentar um pouco?
- Oh pobre urso! – exclamou a mãe. – Entre e fique perto do fogo para se aquecer. Não precisam ter medo meninas! O urso não fará mal a vocês. Sabe-se que é uma criatura bondosa e sincera.
Então as meninas se aproximaram do urso e aos pouco foram esquecendo do medo que ele causava até que por fim acabaram brincando e rolando pelo chão. Quando as meninas foram para suas camas, o urso ficou deitado próximo à lareira. Logo pela manhã, ele partiu. E todas as noites daquele inverno, na mesma hora, ele voltou para a casa das meninas, brincou com elas e se aqueceu ao calor da lareira. Finalmente, chegou a primavera e o sol derreteu a neve. As árvores começavam a brotar novamente e os pássaros iniciaram a construção de seus ninhos.
- Preciso partir agora. – Disse o urso. – E não voltarei antes do final do verão.
- Oh querido urso! Fique aqui conosco! – pediu Rosa Branca que gostava muito dele. – Para onde você vai?
- Tenho que guardar os meus tesouros na floresta, pois tem ali alguns anões muito maus. As meninas ficaram muito tristes ao ver seu amigo partindo, mas ele parecia ter muita pressa. Na correria de ir embora, acabou enroscando seu pêlo no trinco da porta.  E elas viram que havia, por debaixo daquele pêlo escuro, um brilho dourado. Antes mesmo que pudessem falar com ele, já havia desaparecido.
Durante o longo inverno a família tinha gasto toda a lenha e por isso, Rosa Branca e Rosa Vermelha resolveram ir à floresta colher alguns gravetos. Enquanto caminhavam, viram um enorme tronco de árvore caído e alguma coisa que pulava de um lado para outro. Ao se aproximarem viram um anãozinho lutando para soltar sua barba, que havia ficado presa.
- Não fiquem aí paradas! Venham me ajudar! – gritava o anão nervoso.
- Mas o que foi que aconteceu? – Perguntou Rosa Vermelha.
- Estava tentando cortar esta árvore para conseguir lenha, quando fiquei preso. – Rápido! - Vou procurar ajuda! – Disse Rosa Vermelha
- Não há tempo, sua tola! Faça alguma coisa! – Gritava o anão muito irritado.
Então, Rosa Branca, vendo aquela agonia, tirou uma tesourinha do bolso de seu vestido e cortou a pontinha da barba do anão. Mais irritado ainda, ele pegou uma sacola cheia que estava ali perto e, sem agradecer, foi embora resmungando.
Alguns dias se passaram. Rosa Branca e Rosa Vermelha estavam indo ao riacho para pescar um peixe para o jantar, quando viram que a água estava agitada. Ao se aproximarem, viram mais uma vez o anãozinho, preso com sua barba enroscada no anzol.
Não havia outra coisa a fazer senão cortar mais uma vez a barba dele. Com uma tesourada rápida, Rosa Branca libertou o anão.
- Sua miserável! – gritava ele. – Você cortou quase metade de minha barba!
Rapidamente curvou-se e, apanhando um saco cheio foi embora sem nenhum agradecimento.
Pouco tempo depois, a mãe de Rosa Branca e Rosa Vermelha mandou que elas fossem à cidade para comprar agulhas, linhas, rendas e fitas. No caminho, viram uma grande ave que voava em círculos sobre um campo. De repente, escutaram gritos e correram para ver do que se tratava. Para horror das meninas, a ave tinha pego o anão, que tentava com toda sua força se desprender das garras. As bondosas meninas correram e agarraram o anão, lutando com a ave até que finalmente conseguiram espantá-la e livrar o anão.
- Suas desajeitadas! Não podiam ter sido mais cuidadosas? Olhem o que fizeram com as minhas roupas!
Pegando um saco cheio, o anão sumiu entre as pedras de uma enorme caverna.
Na volta da cidade, as meninas passaram novamente pela caverna onde o anão havia entrado e qual não foi a surpresa delas quando viram que ele estava ali, com sua sacola aberta e todo um tesouro de ouro e pedras preciosas espalhado pelo chão.
- O que estão olhando? – gritou o anão furioso. –Vão embora ! Sumam daqui!
Neste instante, um rugido ecoou pelo campo e um urso apareceu. O anão deu um salto de tanto pavor, mas antes mesmo que pudesse fugir, uma enorme pata se abateu sobre a sua cabeça e ele caiu morto.
Muito assustadas as irmãs saíram correndo, mas o urso as chamou:
- Rosa Branca! Rosa Vermelha! Esperem! Não tenham medo, não vou machucar vocês !
Elas se viraram e reconheceram o urso que passara todo o inverno com elas. Felizes davam gritinhos de alegria em volta dele quando, de repente, a pele do urso caiu ao chão e diante delas estava um lindo e jovem rapaz, vestido com roupas de príncipe.
- Sou o filho do rei ! – Disse ele. – E fui enfeitiçado por aquele anão malvado que roubou todo o meu tesouro, obrigando-me a vagar pela floresta como um urso selvagem. Somente a morte do anão quebraria o feitiço. Agora estou livre ! Se não fosse por sua ajuda durante o rigoroso inverno, eu teria morrido. Sou muito grato a vocês !
Logo, os três foram até a casa das meninas e lá contaram para a mãe delas o que havia acontecido. O príncipe precisava voltar para o castelo para ver seu pai. Mas prometeu que voltaria.
Quando voltou, trouxe consigo seu irmão. O príncipe acabou pedindo a mão de Rosa Branca em casamento e seu irmão pediu a mão de Rosa Vermelha. Os felizes casais foram morar no castelo e levaram junto a mãe das meninas, que plantou na entrada do castelo uma roseira branca e outra vermelha.
Todos os anos, as rosas dão flores lindas e perfumadas que alegram o jardim do castelo.


O Soldadinho de Chumbo - Dezembro

O Soldadinho de Chumbo
Andersen



 Numa loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos iguaizinhos, bonitos e elegantes, pois haviam sido feitos com o mesmo molde. Apenas um deles era perneta: como fora o último a ser fundido, faltou chumbo para completar a outra perna. Mas o soldadinho perneta logo aprendeu a ficar em pé sobre a única perna e não fazia feio ao lado dos irmãos. Chegou o dia em que a caixa foi dada de presente de aniversário a um garoto. Foi o presente de que ele mais gostou. E colocou os soldados enfileirados sobre a mesa, ao lado dos outros brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último.
Ao lado do pelotão de chumbo se erguia um lindo castelo de papelão, um bosque de árvores verdinhas e, em frente, havia um pequeno lago feito de um pedaço de espelho.
A maior beleza, porém, era uma jovem que vestia uma saia de tule rosa bem franzida e uma blusa bem ajustada. Seu lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina pedra azul. Era uma bailarina, por isso mantinha o braço erguido sobre a cabeça e uma perna no ar. O soldadinho a olhou longamente e logo se apaixonou, pensando que, tal como ele, aquela jovem tivesse uma perna só.
À noite, antes de deitar, o menino guardou os soldadinhos na caixa, mas esqueceu daquele de uma perna só caído atrás de uma caixa. Quando os ponteiros do relógio marcaram meia-noite, todos os brinquedos se animaram e começaram a aprontar uma enorme bagunça! Mas o soldadinho de uma perna só não conseguia parar de olhar para a bailarina.
Então se ergueu da caixa um homenzinho muito mal-encarado. Era um gênio ruim, que só vivia pensando em maldades. Assim que ele apareceu, todos os brinquedos pararam amedrontados. O gêniozinho olhou à sua volta e viu o soldadinho, deitado atrás da cigarreira.
— Ei, você aí, por que não está na caixa, com seus irmãos? — gritou o monstrinho. — Amanhã vou dar um jeito em você, você vai ver!
Na manhã seguinte, o menino arrumou todos os soldadinhos perto da janela. O perneta, como de costume, era o último da fila. De repente, a veneziana se abriu, bateu um vento forte. Teria sido o gêniozinho maldoso? O pobre soldadinho voou pela janela enquanto caía um verdadeiro temporal. Quando o céu limpou, chegaram dois moleques. Eles se divertiam, pisando com os pés descalços nas poças de água. Um deles viu o soldadinho de chumbo e exclamou:
— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou fora porque ele está quebrado?
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a enxurrada.
— Sabe de uma coisa? Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo.
Construíram um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água que corria pela sarjeta. Apoiado em sua única perna, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. O barquinho dava saltos e esbarrões na água lamacenta, acompanhado pelos olhares dos dois moleques que, entusiasmados com a nova brincadeira, corriam pela calçada ao lado.
Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de um bueiro e continuou seu caminho, em uma imensa escuridão. De repente apareceu um enorme rato de esgoto, com olhos fosforescente e um horrível rabo fino e comprido. Com o coração batendo fortemente, o soldadinho voltava todos seus pensamentos para a bailarina, que talvez nunca mais pudesse ver. Mas o barquinho continuou seu caminho, arrastado pela correnteza. Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou aliviado. A água do esgoto chegara a um rio com um grande salto, as ondas agitadas viraram o frágil barquinho de papel e o soldadinho de chumbo afundou.
Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, abrindo a boca, engoliu-o.
O soldadinho se viu novamente numa imensa escuridão, espremido no estômago do peixe. E não deixava de pensar em sua amada: “O que estará fazendo agora minha linda bailarina? Será que ainda se lembra de mim?” Passou-se muito tempo — quem poderia dizer quanto? E, de repente, a escuridão desapareceu.
Sabem o que tinha acontecido? O peixe havia sido fisgado por um pescador, levado ao mercado e vendido a uma cozinheira. E, por um cúmulo de coincidência, não era qualquer cozinheira, mas sim a que trabalhava na casa do menino que ganhara o soldadinho no aniversário! Ao limpar o peixe, a cozinheira encontrara dentro dele o soldadinho, do qual se lembrava muito bem, por causa daquela única perna. Lavou-o com água e sabão e o levou para o garotinho, que fez a maior festa ao revê-lo. Limpinho e lustroso, o soldadinho foi colocado sobre a mesma mesa em que estava antes. Nada estava mudado: o castelo de papel, o pequeno bosque de árvores muito verdes, o lago reluzente feito de espelho. E, na porta do castelo, lá estava ela, a bailarina, mais bela do que nunca.
O soldadinho olhou para a bailarina, ainda mais apaixonado, ela olhou para ele. Ele desejava conversar, mas não ousava. Sentia-se feliz apenas por estar novamente perto dela. Se pudesse, ele contaria toda sua aventura; com certeza a linda bailarina iria apreciar sua coragem. Quem sabe, até se casaria com ele… De repente — é caso de se pensar se o gêniozinho ruim não metera seu nariz outra vez —, o soldadinho de chumbo voou para a lareira, onde o fogo ardia intensamente. O pobre soldadinho sentiu um forte calor. A sua única perna estava amolecendo, as belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades. O soldadinho lançou um último olhar para a bailarina, que retribuiu com silêncio e tristeza. Ele sentiu então que seu coração de chumbo começava a derreter. Naquele momento, a porta escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez a bailarina voar diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente.
No dia seguinte, a arrumadeira, ao limpar a lareira, encontrou no meio das cinzas um pequenino coração de chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor. Da pequena bailarina só restou a minúscula pedra azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos.